segunda-feira, 21 de março de 2011

Paz em demasia dá muito tédio...


Inesperadamente, aconteceu. Acabou-se a calmaria de outrora, acabou-se a paz interior. “Mas paz em demasia dá muito tédio”, pensava ela. O furor instalou-se em seu corpo e, ousava dizer, em sua alma. Sem que ela esperasse, e de forma avassaladora, surgiu o desejo. Não tinha lógica, não era sensato, não era possível. Mas o que é impossível pra você? Para ela era perfeitamente possível. Esse era o ponto. Eis o motivo do grande tormento: para ela - e apenas pra ela - era possível. Se não fosse, ela faria qualquer coisa para tornar realidade. Porém, não funcionava dessa forma, e ela tinha plena consciência dos fatos. Mas era emocionalmente intensa. A intensidade era tamanha, que arrasava seu coração, perturbava sua mente e sua paz. “Mas paz em demasia dá muito tédio”, ela tornava a dizer, como um mantra, tentando convencer a si mesma de que estava certa. O fato é que ela sabia da dolorosa realidade, mas, apesar de tudo, ela desejava. Desejava demais e a cada dia mais. Desejava urgentemente. Certa vez ouviu dizer que era muito “imediatista”. Sim, ela era... Mas como conter um desejo tão intenso? Ela tentava descobrir a resposta dia após dia. Em vão. Ela despertava pela manhã... e lá estava o mal(ben)dito consumindo-a e fazendo arder em chamas seu corpo. Lá estava seus pensamentos desejando aqueles olhos, aquela boca. Lá estava a sua pele ansiosa por tocar a outra. Ao ir deitar-se, a mesma coisa. Ele continuava lá. Nunca saía, nem por um momento e, por vezes, ela o odiava. Odiava aquele sentimento que veio para acabar com a sua paz. Ah, “mas paz em demasia dá muito tédio”, ela repetia. Sentia-se uma tonta, pois sabia que aquilo era impossível. Mas, novamente, o que é impossível pra você? E ela seguia acreditando. Acreditava, desacreditando. Dia após dia, mês após mês. Porém, ela era humana. E uma hora, o fogo arde demais... e acaba consumindo o que queimou. E ela estava cansada... Emocionalmente cansada. Desejosamente cansada. Urgentemente cansada. E não queria mais querer. Não queria mais desejar, não queria mais sentir. Ela resolveu acabar com aquilo e se muniu de forças. Uma força tremendamente absurda, o suficiente para que realmente funcionasse. Alguém duvida que ela conseguirá? Pois eu lhes digo: lamentarei se ela conseguir, porque tudo voltará a ficar em paz. E “paz em demasia dá muito tédio...”

3 comentários:

Rick disse...

Mirella querida:

Nossa!
Sensacional!
E intenso!
Gostei de mais da construção do texto!
Vc também escreve muito bem!
Dá pra sentir o sentimento exalando pelas palavras...

Parabéns!!!!

Beijos!

Elise Machado disse...

Adorei! Eu já tinha vindo, tinha faltado tempo pra comentar ;)

Michele P. disse...

Mirella

Texto lindo, intenso, tocante! Me vi em cada palavra... Li e reli, devorando cada uma delas!
Meu trecho predileto: "Mas era emocionalmente intensa. A intensidade era tamanha, que arrasava seu coração, perturbava sua mente e sua paz.Mas paz em demasia dá muito tédio”

Lindooooooooo!