domingo, 26 de junho de 2011

Ella era toda feita de vontades. Um certo dia, após tanto sofrer as agruras de ser como era, Ella encheu-se de coragem (e de vontade) e decidiu: seria má. Pôs em um canto o coração aparvalhado. Pegou um enorme baú de madeira e lá depositou suas mais nobres (e tolas) características, uma a uma. Olhou pra dentro do baú e lá estavam a generosidade, a solidariedade, os sonhos cor-de-rosa, as loucuras por amor, o romantismo e as paixões. Sobrara, entretanto, do lado de fora do baú, o amor e a intensidade. Segurou o amor nas mãos e ficou olhando fixamente pra ele. Deixou que uma lágrima caísse de sua face. Não, não poderia esmorecer. Rispidamente, colocou o amor no fundo do baú, escondido por debaixo de todos os outros. Decidiu manter a intensidade consigo. Seria muito útil para sua nova fase. A fase má. Intensamente má. Ella sorriu amarelo ao pensar nisso. Sentia-se tão leve despida de todos aqueles sentimentos! Suspirou e foi banhar-se. Tomou um longo e delicioso banho quente. O banheiro tomou-se de fumaça e o cheiro delicioso espalhou-se pela casa. Sentia-se maravilhosa. O sabonete percorria todo o seu corpo. Ella usava as mãos para espalhar a espuma. Começou a ficar excitada. Seus dedos começaram a fixar-se entre as pernas. E o êxtase a dominou, fazendo-a gemer alto. Saiu do banho de pernas amolecidas, mas sentindo-se renovada. Como era fantástica aquela liberdade de sentimentos! Colocou a menor calcinha que tinha. Vermelha e minúscula. Optou por um vestido justo e preto que moldava as belas curvas de seu corpo. As lindas pernas, bronzeadas e definidas, foram adornadas com um salto 15, deixando as panturrilhas ainda mais apetitosas. Penteou os cabelos e deixou que os cachos negros se moldassem naturalmente. Passou rímel nos cílios e batom vermelho na boca. Aplicou perfume nos dois pulsos, entre os seios e na nuca. Olhou-se no espelho: estava gostosa, linda, sensacional. Abriu a porta de casa para sair. Hesitou por um instante e olhou para trás, com o rosto contraído de amargura. Era a bondosa Ella querendo dominá-la. No canto da sala estava o baú, com todos os seus pertences queridos. Todos aqueles que ela sempre carregou consigo. Todos aqueles “benditos” que sempre a fizeram sofrer. Deu de ombros e virou as costas. Continuou por um momento parada na porta. Suspirou e sorriu. Quem presenciasse o momento, veria que Ella não era a mesma. Sorriu, sim... Mas o sorriso mais malicioso que já havia dado. Um sorriso de fazer corar a mais safada das prostitutas. E foi sorrindo desse jeito que Ella saiu.  Saiu para causar. Saiu para ser má. Deliciosamente má.


P.S: Na volta para casa, Ella descobriu que o que sentia, ao livrar-se de seus sentimentos, não era leveza... Era vazio. Deixemos esse detalhe para outra ocasião.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Paz em demasia dá muito tédio... (O desfecho)

Esse é o desfecho de uma loucura. Uma fase conturbada na vida dela. O início dessa história você encontra clicando aqui.


E chegou o dia em que algo mudou. Do jeito mais verdadeiro que poderia mudar: dentro dela. E a paz, que ela tanto temia, aconteceu. O desejo insano abrandou-se e as chamas, que irracionalmente ardiam em seu corpo, diminuíram. Era fogo baixo, mas era fogo. E ela temia a brisa. Mas o clima andava calmo; sem ventos, sem sopros. Não havia perigo considerável de um novo incêndio. Ela, que achava que "paz em demasia dava muito tédio" admirou-se ao perceber que não havia tédio, não havia falta de tempero, não havia falta de encantamento nos seus dias. Ela percebeu a delícia que é apaixonar-se por si mesma, retomar o fôlego pela vida, resgatar a dignidade, olhar-se no espelho e achar-se fantástica. A partir do momento em que ela conseguiu reassumir o controle da própria vida, seu mundo ampliou-se. Tudo teve novo sentido. Não era apenas o término de um capítulo. Era muito mais. Era o fim de um longo livro... E era o início de um novo. O antigo estava, sim, guardado... E ela não descartava a possibilidade de relê-lo quando tivesse vontade. Afinal, o livro não tinha sido de todo ruim. Foi um grande aprendizado, houve riso, houve choro, houve raiva, houve tesão, houve paixão. Mas ela estava eufórica era pelo novo livro. Capa nova, conteúdo gostoso e encantador. Às vezes ela pensava na maravilha que é essa vida. O mundo gira, gira, gira, as coisas mudam inimaginavelmente, o sentimento se renova. Ela, que achava que aquela insensatez nunca passaria, subitamente se viu ainda mais louca do que antes... Mas, desta vez, pelo seu reflexo no espelho. Não, definitivamente não havia paz em demasia. Havia loucura sensata. Havia desejo responsável. Havia turbilhão de emoções apaziguado. Havia caos organizado. Havia entrega total de si mesma... Porém apenas da cópia. A original era dela e ninguém tomava. Ela descobriu, enfim, que o gostoso é sentir desejo pelo desejo que o outro tem por ela. Ela descobriu, enfim,  que apaixonar-se por ela era um feito pra pessoas loucas-sensatas e caóticas organizadas. Como ela. Ela descobriu que paz em demasia dá, sim, muito tédio. Mas essa paz será sempre sua eterna desconhecida. Não haverá espaço pra tédio no seu corpo, na sua alma, na sua vida. Ela descobriu e se redescobriu. E muita, muita sorte terá o primeiro que descobir nela o que ela já sabe de si.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Adorei, Mi!


Amigos são coisas preciosas, não é? Eu sou extremamente feliz e grata a Deus por ter poucos e bons amigos. E é tão gostoso ver que, na vida, apesar das dores, ainda existem pessoas por quem vale a pena viver, com quem vale a pena dividir o riso, com quem vale a pena papear até altas horas da madrugada mesmo tendo que acordar cedinho no outro dia. Uma dessas pessoas incrivelmente maravilhosas é a Michele P. Eu a conheci há pouco meses, mas tenho a sensação de que já há conheço há anos! São pouquíssimas as pessoas a quem posso chamar de amigo. A Michele é uma dessas pessoas. Encho a minha boca e falo com o maior orgulho do mundo. Ela é minha AMIGA. Mi, muito obrigada por esse presentinho, querida! Você foi mais rápida do que eu, mas o seu já está a caminho. Espero que você também goste tanto quanto eu gostei do seu. Mi, eu amo, amo, amo, ler!! E como boa romântica, estou sedenta pra terminar o livro que estou lendo (nada romântico, é só ver aí na lateral do blog, hahaha) e começar esse do Nicholas Sparks! Sabe que eu já estava namorando os livros dele há tempos? Estava apenas esperando uns que comprei e estão na fila! Mas esse aí vai passar na frente, com certeza! hahaha
Obrigada, minha amiga linda! Amo você!!!




domingo, 19 de junho de 2011

Vontade...





Ai, que vontade louca de te enlouquecer...
E por alguns instantes
De tudo te fazer esquecer
Ai, que vontade
De beijar esse cantinho da tua boca
E te enlouquecer, ficando louca
De sentir a minha pele arranhando
Na maciez áspera da tua
Ai, que vontade de te acarinhar
De no meu colo te fazer deitar
De te fazer cafuné
De beijar cada cantinho do teu rosto
E ao chegar na boca, provar teu gosto
Sem roteiro, sem ensaio, sem cena
Apenas sentindo, apenas deixando levar
Dane-se a maquiagem!
Que se exploda a roupa nova!
Borra-me o rímel
Rasga-me a roupa
Deixa-me ser tua
Prova-me
Sente o meu prazer
Sente a minha vontade
De te ter
De ter todas as tuas imperfeições
E se nada disso for possível
Não, agora
Permita que eu te revele
Acredita no meu desejo
No meu tesão
Permita-se!
Doe-se!
E se ainda assim não for possível
Perdoe-me??


A noite alta


Tenho fascínio pela madrugada.
Enquanto o mundo se encolhe, me expando.
Enquanto todos se acolhem, desencanto.
O silêncio da noite alta traz aos meus pensamentos o pranto.
E traz calmaria à minha tormenta.
Traz paz, me ilude, me alimenta.
A escassez de almas despertas faz agudizar as minhas dores.
O ar úmido e negro me faz relembrar alguns amores.
A madrugada me desnuda, me escancara, me entorpece, quase me estupra.
A ela, eu me rendo...
Aos poucos, vou me envolvendo...
Acontecendo... 
E finalmente, acabo adormecendo.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Patrícia



Eu a conheci na escola, na 4° série. Morávamos em ruas paralelas. Ela na rua de cima, eu na de baixo. Ficamos amigas. Conheci outras amigas através dela (como a Helena, sobre quem já escrevi nesse post aqui). Rimos juntas incontáveis vezes. Já dormi na casa dela. Ela já dormiu na minha. Nós nos conhecemos crianças e nos vimos crescendo juntas. Nos tornamos adolescentes. Fomos confidentes do primeiro beijo, do primeiro namorado, do primeiro “tudo”. Virávamos algumas noites rindo juntas e fofocando. E ela sempre queria mexer na minha orelha gelada pra dormir (e eu detestava). Era sempre a última a acordar. Comíamos sempre o cachorro-quente prensado da esquina com suco Clight, sabor uva Itália, na casa dela. Também já pagamos muito mico juntas (aulas de jazz, com collant rosa e direito a spacat... Vergonha total, hahahaha). Trocamos de colégio juntas duas vezes. Ela me esperava de manhã, pra irmos a pé pra escola. E reclamava que eu sempre me atrasava. Fizemos muitos trabalhos de escola juntas, morrendo de sono à tarde e com as letras embaralhando. Tomávamos café preto com bolacha de chocolate. Fui a muitas festas juninas no aniversário dela, com aquelas guloseimas maravilhosas que só mesmo a Dona Odete (mãe dela) pra fazer. Fizemos muita festinha na casa de praia dela. Andamos muito de moto por aí. Um dia ela conheceu meu primo. Namoraram por anos e anos e anos (contas rápidas me dizem aqui que foram uns 9). No início desse ano, esse relacionamento deu frutos. Nasceu a Lorena. Filha da minha grande amiga com meu primo, olha que fantástico! Bom... Isso é um pouco (muito pouco) do que nós já passamos juntas. A Patrícia é uma mulher encantadora. Era menina, tornou-se uma mulher. Magra, alta, sempre bronzeada. E continua com o mesmo sorriso no rosto de sempre. É o tipo de pessoa que está sempre rindo de tudo. Mas tem os seus defeitinhos... Nunca marque compromisso com ela. A chance de ela faltar é gigantesca (desculpa, Pati, mas sou sincera hehehe). Eu e a Helena costumamos chamá-la de “feia”. -Oi, Helena, falasse com a feia? “-Ah, liguei pra ela, mas não estava em casa! Mas é uma feia, mesmo!” Hahahahaha. É mais ou menos assim. É nosso jeitinho carinhoso de tratar nossa LINDA amiga.
Minha amiga, hoje você completa 25 anos e eu precisava que você soubesse a importância que tem na minha vida. As memórias do que passamos estão guardadas. E o meu melhor abraço, sempre disponível. E hoje ele é SEU.

 FELIZ ANIVERSÁRIO, PATRÍCIA!!







quarta-feira, 15 de junho de 2011

Paciência (É, a vida não para mesmo...)


Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não...
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para...
A vida não para...


(Lenine e Dudu Falcão)






Eu sempre amei essa música. Ela sempre me trouxe calma, sempre me fez repensar e questionar muitas das minhas atitudes. E a letra tem se encaixado perfeitamente à fase atual da minha vida. Delícia de ouvir!


domingo, 12 de junho de 2011

Mènage a trois





Quem disse que namoro, sexo e fim de namoro não se faz a 3? Em homenagem ao Dia dos Namorados, três blogueiros resolveram falar a 3 sobre o tema. Michele P., Eraldo Paulino e Mirella de Oliveira, cada um com um tema, falando sobre a parte do namoro que não cabe nos comerciais de perfume.

Ah, e olha só qual foi meu tema?? Sexo! Eu não poderia ter gostado mais! Afinal, acho que um relacionamento pode ter tudo: respeito, carinho, compreensão, afinidade, admiração... Mas se não rolar aquela química sexual, se na cama (ou no carro, na escada, onde sua imaginação permitir) não rolar aquele encaixe perfeito... Ah, pra mim de nada adianta. Afinal, respeito, carinho, compreensão, afinidade, admiração você encontra em qualquer amigo seu de verdade. Sexo em um relacionamento é fundamental. E dentro do relacionamento, vale tudo. Claro, com acordo mútuo, com carinho e com respeito entre as partes. Mas vamos lá, o que seria esse tudo a que me refiro? É t-u-d-o, meus queridos. Não gosto de generalizações, mas para o homem há muito mais liberdade sexual, e com isso, tudo fica mais fácil. Não tendo grilos, nem pressão da sociedade, goza mais fácil, faz sexo do jeito que tem vontade, e sem peso na consciência. Para as mulheres, ahhh, o buraco é mais embaixo. Mas isso tem mudado muito (ainda bem) e as mulheres estão se mostrando mais donas de si e dos seus desejos. Afinal, mulheres gostam de sexo tanto quanto homens (algumas vezes, até mais). Porém, a mulher tem sim, as suas peculiaridades. Mulher precisa de preliminar, beijos, abraços, mãos percorrendo o corpo, boca, língua. Não digo que homem não precisa, muito pelo contrário, eles ficam loucos com isso (principalmente quando falo em boca e língua hahahaha). Mas a mulher tem maior necessidade disso do que o homem. O homem é mais visual, na maioria das vezes. Também não quero dizer que mulher precise sempre de preliminares, não.  Às vezes tem aquela rapidinha escondidinha pra matar o tesão, que é ótima. Mas não é sempre. O bacana mesmo é a mulher sem pudor, sem frescura, sem falso puritanismo. Mas tem um grande porém: o homem tem que fazer com que a mulher tenha essa vontade. Nem a maior das ninfomaníacas goza com um cara que a usa como “punheta elaborada”, sem se importar com o seu prazer. Homem tem que ter dedicação, tem que ter tesão na mulher e mostrar isso, tem que admirá-la, tem que saber tocá-la, tem que saber que existem muitos pontos de prazer (e não apenas aqueles famosos)... Enfim, tem que ter a tal da “pegada”, não tem jeito. E vale pra mulher também, viu? Tem que mostrar interesse no homem, tem que gostar de tocá-lo, tem que ter pegada também. Acho que acaba se tornando um círculo: o homem se dedica, a mulher passa a ter vontade e também se dedica, provocando tesão no homem, e aí ele se dedica hahahaha. É simples, viu?? Vale tudo, quando se tem respeito! Até mesmo um Ménage a trois, como esse! :D
Espiem lá o tema dos meus amigos Eraldo e Michele.
Beijos e Feliz dia dos Namorados

sábado, 11 de junho de 2011

Meu eu em você




Eu sou o brilho dos teus olhos ao me olhar
Sou o teu sorriso ao ganhar um beijo meu
Eu sou teu corpo inteiro a se arrepiar
Quando em meus braços você se acolheu
Eu sou o teu segredo mais oculto
Teu desejo mais profundo, o teu querer
Tua fome de prazer sem disfarçar
Sou a fonte de alegria, sou o teu sonhar
Eu sou a tua sombra, eu sou teu guia
Sou o teu luar em plena luz do dia
Sou tua pele, proteção, sou o teu calor
Eu sou teu cheiro a perfumar o nosso amor
Eu sou tua saudade reprimida
Sou o teu sangrar ao ver minha partida
Sou o teu peito a apelar, gritar de dor
Ao se ver ainda mais distante do meu amor
Sou teu ego, tua alma
Sou teu céu, o teu inferno, a tua calma
Eu sou teu tudo, sou teu nada
Minha pequena, és minha amada
Eu sou o teu mundo, sou teu poder
Sou tua vida, sou meu eu em você

(Paula Fernandes)





quinta-feira, 9 de junho de 2011

O frio que aquece


Tarde de outono no Morro das Pedras-Florianópolis. Foto: Camila Valerim


Frio no sul.
Delicioso frio do sul.
Ar gélido que acalenta, conforta, seduz.
 E sim, aquece!
Ar gélido que percorre a espinha.
Causando arrepios intensos.
Vento sul que bate no rosto.
Fazendo sorrir.
Fazendo pensamentos voarem pra longe.
Imaginação correndo solta,
Coração bombeando sangue cada vez mais rápido,
Disseminando sentimento a cada célula do corpo.
Fazendo cada centímetro dele
Ter ciência
Do que se passa na cabeça...
 E conhecendo, ele transpira.
Ignorando solenemente a baixa temperatura,
Transpira!
Emoção escorre pelos poros...
E pelos olhos.


terça-feira, 7 de junho de 2011

Privação dos Sentidos



Quero sair para dançar, usar um vestido que rodopie e flutue em volta de mim e rir.
Quero sentir a luz trêmula da seda enquanto ela escorrega pelos meus braços e pelo meu corpo, a alegria de tocar com os dedos sua maciez.
Quero dormir na minha própria cama, regalar-me na frescura dos lençóis limpos e descansar minha cabeça em meu travesseiro macio. E ir dormir quando quiser, com todas as luzes apagadas, e acordar quando estiver pronta.
Quero me esticar em meu sofá debaixo da minha manta de lã azul e ouvir minha música favorita escoar dos alto-falantes para dentro do meu ser, regando a paisagem ressequida da minha alma.
Quero sentar-me na varanda, bebericar café quente de minha caneca de faiança, ler o jornal e ouvir o cachorro latir para as folhas que caem ou para esquilos invasores.
Quero atender o telefone e ligar para meus amigos e família e conversar até termos colocado em dias todas as palavras que guardamos um para o outro, e rir.
Quero ouvir o trem apitar através de Loveland, o cascalho sendo esmagado na porta da garagem e portas de carros batendo quando os amigos vêm nos visitar. E o tilintar e tinir dos talheres contra a louça, o chiado e o gorgolejo da máquina de fazer café.
Quero sentir meus pés descalços na brancura fria do chã da minha cozinha e na maciez azul do tapete do meu quarto.
Quero ver as cores, todas elas, cada cor jamais fiada na existência. E o branco, branco de verdade, puro e imaculado. E alqueires de árvores verdes e quilômetros de estradas com fitas amarelas e centenas de metros de luzes de Natal. E a Lua.
Quero sentir o cheiro de bacon fritando, um filé grelhando. Jantar de Ação de Graças e a plantação de tomates do meu pai. E roupa recém-lavada, asfalto novo em um estacionamento. E o oceano.
Porém, mais do que tudo isso, quero ficar de pé na porta do quarto do meu filho e vê-lo dormindo. Ouvi-lo acordar pela manhã e vê-lo voltar para casa à noite. Tocar seu rosto e passar meus dedos por seus cabelos. Pegar uma carona em seu caminhão e comer seus sanduíches de queijo quente.
E vê-lo crescer, rir, brincar, comer, dirigir e viver. Acima de tudo, de tudo, viver. E passar meus braços à sua volta e segurá-lo até ele rir e dizer:
-Já chega, mamãe!
E então ser livre para fazer tudo de novo.

Deborah E. Hill


Eu adoro esse texto. Sempre leio quando preciso me animar, como agora. Espero que gostem.
Beijos,

Mi

sábado, 4 de junho de 2011

Cansaço



Tem dias em que o cansaço vem com força total. E não estou falando do cansaço físico, não. Falo do cansaço emocional, do ânimo, da vontade, da disposição. Tem dias que o que você mais quer é dormir... Dormir por dias e dias e dias... E só acordar quando estiver pronta. Só acordar quando o fôlego pra viver tiver sido retomado. Eu sei que é errado, mas às vezes me ocorre que viver é pra poucos. Digo viver mesmo, em toda a plenitude da palavra... Às vezes penso que não é pra mim. Tem dias em que me sinto uma fraca... Tem dias que canso desse negócio de ser adulta, de querer ser auto-suficiente, de tentar ser a melhor mãe, de tentar ser a melhor mulher, de tentar ser a melhor filha, de tentar ser a melhor profissional. Às vezes bate uma preguiça danada de ser gente grande. Vontade imensa de assistir a uma dezena de filmes embaixo das cobertas, comer um monte de besteiras e esquecer de tudo do lado de fora. Mas a vida não para pra minha dor, não para pro meu cansaço, não para pra minha indisposição. As contas estão aí a serem pagas, os filhos estão aí precisando de comida, banho, carinho e mãe. Eu sei que vai passar. Não existe outra alternativa. Tem que passar. Há muita vida pela frente. Há muita beleza lá fora. Há muito amor pra me transformar. E vai, e vai...