terça-feira, 7 de junho de 2011

Privação dos Sentidos



Quero sair para dançar, usar um vestido que rodopie e flutue em volta de mim e rir.
Quero sentir a luz trêmula da seda enquanto ela escorrega pelos meus braços e pelo meu corpo, a alegria de tocar com os dedos sua maciez.
Quero dormir na minha própria cama, regalar-me na frescura dos lençóis limpos e descansar minha cabeça em meu travesseiro macio. E ir dormir quando quiser, com todas as luzes apagadas, e acordar quando estiver pronta.
Quero me esticar em meu sofá debaixo da minha manta de lã azul e ouvir minha música favorita escoar dos alto-falantes para dentro do meu ser, regando a paisagem ressequida da minha alma.
Quero sentar-me na varanda, bebericar café quente de minha caneca de faiança, ler o jornal e ouvir o cachorro latir para as folhas que caem ou para esquilos invasores.
Quero atender o telefone e ligar para meus amigos e família e conversar até termos colocado em dias todas as palavras que guardamos um para o outro, e rir.
Quero ouvir o trem apitar através de Loveland, o cascalho sendo esmagado na porta da garagem e portas de carros batendo quando os amigos vêm nos visitar. E o tilintar e tinir dos talheres contra a louça, o chiado e o gorgolejo da máquina de fazer café.
Quero sentir meus pés descalços na brancura fria do chã da minha cozinha e na maciez azul do tapete do meu quarto.
Quero ver as cores, todas elas, cada cor jamais fiada na existência. E o branco, branco de verdade, puro e imaculado. E alqueires de árvores verdes e quilômetros de estradas com fitas amarelas e centenas de metros de luzes de Natal. E a Lua.
Quero sentir o cheiro de bacon fritando, um filé grelhando. Jantar de Ação de Graças e a plantação de tomates do meu pai. E roupa recém-lavada, asfalto novo em um estacionamento. E o oceano.
Porém, mais do que tudo isso, quero ficar de pé na porta do quarto do meu filho e vê-lo dormindo. Ouvi-lo acordar pela manhã e vê-lo voltar para casa à noite. Tocar seu rosto e passar meus dedos por seus cabelos. Pegar uma carona em seu caminhão e comer seus sanduíches de queijo quente.
E vê-lo crescer, rir, brincar, comer, dirigir e viver. Acima de tudo, de tudo, viver. E passar meus braços à sua volta e segurá-lo até ele rir e dizer:
-Já chega, mamãe!
E então ser livre para fazer tudo de novo.

Deborah E. Hill


Eu adoro esse texto. Sempre leio quando preciso me animar, como agora. Espero que gostem.
Beijos,

Mi

2 comentários:

Michele P. disse...

Mi
O texto é lindo e retrata bem como deveria ser a vida! Viver é uma dádiva, por isso chamamos o hoje de presente. :)

Boa terça-feira!
Beijos

Eraldo Paulino disse...

É. Dá vontade de viver.

Bjs!