sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os meus melhores olhos


Moro no mesmo bairro desde criança. Não é um bairro de classe A, mas também está muito longe de ser um bairro pobre. É um bairro pequeno, em uma cidade muito próxima à capital. Nele, eu me sinto em casa. Tudo me soa familiar. As ruas me trazem recordações de toda uma vida. Passo pela avenida principal e encontro o colégio público onde estudei até a sétima série. Naquele colégio, recordo-me de alguns professores, recordo-me dos longos textos de Geografia, os quais eu decorava letra por letra e tirava dez nas provas. Recordo-me dos ditados em que não errava nenhuma palavra e das aulas de Português, em que inventava longas historinhas mirabolantes nas redações.
Do outro lado da rua, vejo a casa de esquina onde me criei. A casa que ainda é dos meus avós. Repasso mentalmente a infância naquele lugar. Lembro do meu avô varrendo a calçada. E sinto saudades vivas, ainda. Do meu avô, que se foi há dois meses e tinha um sorriso tímido e longas histórias para contar. Vejo outra rua logo acima e lembro-me dos momentos passados ao lado de minhas grandes amigas. Ambas moravam nesta mesma rua. Naquele bairro e naquelas ruas, eu vivi, cresci, chorei, sorri, aprendi e me transformei no que sou hoje.
Há 10 minutos dali, após subir um aclive discreto, eu vejo a rua comprida e escura onde eu sempre ia, com a barriga revirando de ansiedade e nervosismo, encontrar meu primeiro namorado. No outro oposto do bairro eu vejo a rua pequena e iluminada onde ia, um pouco mais madura, encontrar o meu segundo namorado, anos depois. Momentos diversos, intensos e variados foram vividos nesses locais, nessas ruas, nesse bairro. Ali, eu me sinto em casa. Conheço na palma das minhas mãos cada caminho, cada viela, cada beco.
Mas isso é como EU o vejo. Isso são os MEUS olhos. Se você, que nunca pisou seus pés nesse local, aparecer por aqui, em uma segunda de madrugada, talvez tenha medo, talvez ache assustador, talvez ache o bairro vazio e triste. Se você mora em um bairro nobre de outra cidade, se você mora em Nova Iorque ou o que o valha, você vai achar um bairro pobre, um bairro feio, um bairro sinistro. Porém, se você é de um local mais humilde, talvez ache que aqui é um paraíso na Terra. Talvez ache aconchegante, tranqüilo, familiar.
Dei toda essa volta porque esses dias tive uma constatação. Uma constatação boba, mas que me deu um estalo bacana e me acrescentou muito: tudo depende do lugar em que você senta na arquibancada. Tudo depende do ângulo em que você olha o objeto. Olhe uma bela grávida de biquíni. Olhe de costas: Uma gostosona. Olhe de perfil: Uma bela gestante. Olhe de frente: Uma bela moça, um pouco sem cintura. E assim é a vida. Assim também são as situações em que vivemos. Olhe pelo melhor ângulo. Sempre há escolha boas e ruins entre as poltronas do cinema, a não ser que você fique sentado do lado de fora, vendo o tempo passar e resolvendo entrar na sessão apenas lá pela metade do filme. Apresse-se e faça a melhor escolha. Faça a que mais te agrada! 
O que te faz sorrir? Que situação só você viveu e que, ao parar para pensar, te faz sorrir e se alegrar? Pense nela. Sinta-se feliz. Agora, use os mesmos olhos radiantes e olhe aquela situação que te entristece com as mesmas lentes. Ainda assim não conseguiu se alegrar? Então, mude o ângulo de visão. Olhe mais à esquerda. Mais à direita. Mais à frente. Ajeite. Posicione. Foque de um jeito mais nítido, mais confortável. Você tem esse poder. Você pode olhar de um jeito mais legal aquilo que você jura que não está. 
O que sei é que, a partir de agora, vou procurar observar a minha vida e tudo o que acontece nela do mesmo modo que observo o bairro em que nasci: Com os meus melhores olhos.

2 comentários:

Luna Sanchez disse...

Eu concordo, Mirella : tudo depende de como se vê, do ângulo pelo qual se escolhe olhar para as coisas, as pessoas, as situações.

Teu belo texto me fez lembrar dessa canção :

"O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
O seu olhar
Seu olhar melhora
Melhora o meu"


=D

Um beijo, flor.

Mirella de Oliveira disse...

Marisa Monte... Linda essa letra, Luna!
Beijo