domingo, 14 de agosto de 2011

Graxa e batom


Ela era uma mulher bonita, distinta, com cabelos castanhos sempre modelados em um coque conservador. Era inteligente e isso era enfatizado pelos seus óculos de grau, que lhe conferiam um sedutor ar de intelectualidade. Tinha um respeitável emprego como advogada no escritório mais famoso da cidade. Para o trabalho, suas roupas variavam muito pouco. Quase sempre eram compostas de saia justa e escura, abaixo dos joelhos, camisa de cores claras e saltos altos e finos. 

Ela passava por aquele local todos os dias, a caminho do trabalho. Entretanto, nunca havia reparado naquela oficina, quase esquecida nos fundos da rua. Nunca. Até precisar dos seus serviços. A oficina, minúscula como a rua em que se localizava, era simples e caindo aos pedaços. Ainda não havia ido à falência porque o movimento era intenso por ali, já que a rua, apesar de pequena, dava acesso à avenida principal da cidade.

Ao contrário da moça, o filho do dono do estabelecimento (e único mecânico dali, já que o pai estava muito debilitado) nunca deixou de notá-la. Ele lembrava como se fosse ontem da menina, aos quinze anos, passando por ali de calça jeans, All-Star e camisa de banda de Rock, mascando chicletes e a passos apressados, atrasada para a escola.

Lembrava-se ainda, da linda jovem que se tornou, anos depois, mantendo as calças jeans, porém mais justas. Recordava-se fascinado de como a menina havia ganhado belas curvas e de como equilibrava-se lindamente em cima de saltos altíssimos. Reparava minuciosamente quando a moça passava segurando livros grossos, a caminho da faculdade. "Princípios Básicos de Direito Penal", ele conseguiu ler, certa vez. Achou um bicho-de-sete-cabeças inicialmente, mas logo pôde presumir qual curso a moça frequentava.

Com isso, sua admiração por aquela pseudo-estranha, que nem sabia de sua existência, cresceu ainda mais. Nos dias de hoje, anos depois, ela não passava mais a pé. Recentemente havia comprado um lindo carro, o que deixou seu admirador secreto orgulhoso de sua musa. Ele não sabia seu nome, mas estimava que tinham a mesma idade.

Em um fatídico dia, aquelas duas vidas se cruzaram. Era dezembro e o calor intenso havia tomado os dias e as noites da última semana. Era o dia da festa de confraternização no escritório da advogada. Já era noite e ela já estava pronta. Calçava salto alto cor de caramelo, que mostravam as unhas dos pés cuidadosamente feitas. O vestido era longo, rosa-claro, realçava suas belas curvas e tinha um ousado decote. Usava brincos pequenos e levava uma pequena bolsa a tiracolo.

Olhou-se no espelho e ficou satisfeita com o que viu. Olhou pela janela e sentiu a brisa fresca que vinha acariciar aquela noite de verão, antes maltratada pelo sol ardente da tarde. Olhou o relógio. Já estava na hora. Entrou no seu carro e partiu. Pegou a direção da rua pequena que dava acesso à avenida principal. Quando entrou na via, percebeu que algo estava errado com seu carro. Tentou ignorar, mas o barulho aumentou, o carro começou a dar trancos e de repente parou. A moça xingou todos os nomes que conhecia (e eram poucos, afinal) e tentou ligar para a oficina em que ia sempre, mas ninguém atendeu. Já era tarde e todos os estabelecimentos já estavam fechados. Quando ia tentar ligar para alguns amigos, seu celular descarregou.

Perto dali, o moço da oficina finalizava seu último carro. Estava ansioso para ir embora, afinal a oficina já deveria estar fechada há horas. Entretanto, excepcionalmente naquele dia, ele havia sido obrigado a terminar aquele serviço devido a insistência do cliente, que precisaria do carro urgentemente para o dia seguinte. O cansaço havia tomado conta dele. O suor escorria pela testa e pelo seu peito quase completamente desnudo. Ele vestia um macacão azul escuro de calças compridas. Detestava aquela roupa, mas seu pai o havia ordenado que usasse, para impor respeito aos clientes. O rapaz foi pressionado a aceitar a ideia, apesar de estar sofrendo com aquelas calças compridas no calor senegalesco que fazia nos últimos dias. Como não havia mais ninguém na oficina e a rua encontrava-se completamente vazia, ele achou que não teria problema se desabotoasse os botões do macacão e erguesse as mangas.

Enquanto dava um tempo no trabalho para beber ávidamente água de uma garrafa plástica de refrigerante, ele percebeu um movimento estranho no início da rua. Estava escuro, mas ele conseguia avistar um carro parado e uma mulher de vestido longo, aparentemente chutando o veículo. Atribuiu aquela alucinação ao calor que fazia, mas logo apertou os olhos e pôde ver que não se tratava de miragem. Era mesmo uma mulher chutando um carro. Caminhou até a metade do caminho e gritou para a mulher, perguntando se estava tudo bem. Ela gritou de volta, dizendo que estava tudo péssimo.  

Conforme ele ia caminhando, percebeu de quem se tratava. Se coração palpitou. Apesar de conhecer as características daquela mulher de cor, jamais havia trocado palavras com ela. Jamais havia ouvido o som de sua voz. Ele empurrou o carro até a oficina e começou a verificar o que havia acontecido. Enquanto ele tentava se concentrar no carro dela, em meio aos tremores de sua mão, ela começou a observá-lo.

Era alto e moreno, com cabelos ondulados e abundantes, o peito nu estava transpirando e era peludo. Os braços eram musculosos e mostravam o quanto ele já havia trabalhado por ali. A advogada sentiu uma excitação intensa percorrer-lhe a espinha. Suspirou e tentou afastar os pensamentos obscenos daquele homem suado e sujo, perguntando a ele se tinha algum telefone, para avisar que ia se atrasar pra festa. Ele desculpou-se, mas não havia telefone na oficina. Ela praguejou em silêncio.

Subitamente, ele deixou uma peça cair de suas mãos, e reflexamente ela pulou a frente para pegar. A peça não caiu, mas as mãos da advogada encheram-se de graxa. Ele ficou envergonhado e pediu desculpas afobadas a ela. Terminou rapidamente o serviço e pediu a ela a chave do carro, para ver se estava funcionando. Ela procurou a chave cautelosamente dentro da bolsa, lutando para que não a sujasse, já que estava com as mãos completamente sujas de graxa. Pegou a chave, mas a mesma fugiu da ponta de seus dedos e foi parar dentro do decote. "Merda" ela gritou. Ela o fitou. Ele a encarou de volta. Instintivamente, ele olhou para o decote. Ela olhou para as mãos dele e para as suas próprias. Ambas estavam tomadas de graxa... "Pegue pra mim", ela disse... "Mas NEM... PENSE... em usar as mãos!"



Adriana nunca foi àquela festa. Rodrigo nunca terminou o serviço no carro daquele cliente. Ela continuava passando pela rua pequena todos os dias. Mas a oficina nunca mais passou despercebida. Ambos trocavam sorrisos maliciosos, todos os dias. A advogada e o mecânico. A moça cheirosa e o moço sujo de graxa. O moço sem estudo e moça inteligente.

9 comentários:

Michele P. disse...

Muito bom! Adorei o conto, cheio de sensualidade, de suspense e de expectativas...

Mirella de Oliveira disse...

Obrigada, Mizoca! :)

Anônimo disse...

Adorei seu conto, Mirella!
Criativo, sensual e com um toque de mistério.

Beijo!
Duda

Luna Sanchez disse...

O mecânico bronco também habita o meu imaginário, Mi...Típico perfil de homem gostoso, rude, com pegada! Ui, ui, ui...adoooooooooooroooooooo!!!

=)

Belo conto, excitante na medida, gostei muito!

Um beijo, flor.

Maela disse...

Excelente Mirella!


Amei, muito inspirado

Átila Goyaz disse...

Conto delicioso! :P
bjus!

Mirella de Oliveira disse...

Duda,

Ebaa, gostou? Que bom! Obrigada, viu? :)

Luna,

Gostoso, rude e com pegada. Menina, vc falou a minha língua! Eu queria ser essa advogada aí, confesso! :x hahahahahaha Que bom que gostou! Beijooo

Maela,

É, me inspirei, você viu!? hehhe Obrigada!

Átila,

Vindo de alguém que escreve maravilhosamente BEM como você, é um baita elogio! Obrigada!

Vanessa disse...

Adorei o conto Mirella. Bem criativo.

Trabalho em uma oficina, aí li o conto e estiquei o olho pra ver se achava alguém como "seu " mecânico por aqui. Menina, que derrota...sem comentários, devia ter deixado só na imaginação msm...kkkkkk

Bjo

Mirella de Oliveira disse...

Vanessa,

Hahahahahah menina, fiquei com dó de você! Mas continue imaginando... Vai que surge um moço novo pelo pedaço, hein? Beeijo! :D