sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O fim que ninguém viu


Ela saiu do trabalho no horário habitual. Era fim de tarde e sua mente estava concentrada na briga que teve com o namorado logo pela manhã, na barriguinha que sobrava sob a calça e estava incomodando e no relatório que o chefe estava exigindo para o outro dia às sete. O corpo estava cansado, ela estava com sono e pensava no que teria para comer quando chegasse a casa. Aborreceu-se ao lembrar que encontraria a pia da cozinha do mesmo jeito que havia deixado: entupida com as louças acumuladas da pizza da noite anterior e do café-da-manhã corrido que teve logo cedo. Era um dia como qualquer outro e ela fez lentamente o seu caminho em direção ao ponto de ônibus, contando os minutos para o seu merecido descanso.

Absorta em pensamentos, ela não viu nada. Distraída, não percebeu que uma mão imunda lhe tapou a boca e que alguém muito forte a empurrou para dentro de um porta-malas de um carro velho. Em meio à tontura repentina, ela tentou organizar os pensamentos. No minuto anterior estava caminhando e pensando em sua rotina; no outro, estava em um local escuro, fétido e com o coração palpitando. Um medo aterrador percorreu-lhe a espinha. O carro andou por meia hora. Para ela, pareceu uma eternidade dentro de um liquidificador gigante e sem luz. Repentinamente, silêncio absoluto.  Ouviu sons de passos vindos de fora. Com um clique metálico, o porta-malas se abriu. 

As mesmas mãos ásperas que haviam lhe tapado a boca anteriormente, agora puxavam-na com força pelos pulsos. O homem tinha cerca de quarenta anos e vestia-se como uma pessoa comum. Tinha uma barba espessa e escura e fedia a álcool e suor. Puxou-a para fora e a prensou de pé, com seu corpo forte, contra o carro. Começou a beijá-la desajeitadamente na boca e sua mão começou a apertar seus seios com força. Quando as mãos do homem começaram a descer em direção a sua virilha, o pânico que a imobilizava deu lugar à vontade de lutar. Fazia força e tentava desvencilhar-se do sujeito. Em vão. O odor de álcool provocou náuseas na moça e ela, tomada por uma enorme repugnância, cuspiu no rosto do homem.

Ele parou por um momento e olhou nos olhos dela. Em seguida, deu-lhe um tapa com força em sua face direita e gritou “Vadia!”.  Jogou-a com força no chão de terra e arrancou com brutalidade sua calça. Ao se sentir penetrada, ela parou de lutar. Virou seu rosto para o lado e alternou momentos de choro compulsivo com gritos abafados de dor e terror. Quando finalmente ele parou de se movimentar, ela sentiu o líquido quente entre suas pernas. Nesse momento, parou de chorar e ficou imóvel. O terror e a dor deram lugar a um nojo imenso de si mesma.

Ele a puxou pelos cabelos e a colocou de pé. Deixou-a sozinha e contornou o carro, abrindo a porta do passageiro à procura de algo. Ela estava livre para correr e fugir, mas ele sabia que ela não conseguiria. Mesmo que conseguisse, não teria para onde ir. Ela olhou em volta. A noite estava caindo e sua visão estava embaçada pelos resquícios de lágrimas secas. Com esforço, conseguiu ver que estava em uma mata fechada. Perto dali, um barranco intensamente arborizado. Ele voltou com uma faca na mão e, antes que ela pudesse reagir, desferiu-lhe cinco golpes em seu ventre. Ao esfaqueá-la pela última vez, ele gritou novamente “Vadia!”.

Segurando-a novamente pelos cabelos, ele a empurrou em direção ao despenhadeiro e a jogou sem dó. Ela caiu rolando e, ao fim, sentiu a lama fria adentrar suas narinas. Dez segundos depois, sua bolsa caiu ao seu lado. Ouviu ao longe o barulho do motor do carro se afastando. Ela tentou instintivamente levantar-se, mas a cada centímetro que se movia, sentia que uma lâmina afiada atravessava seu estômago. Exausta e com dores cada vez mais intensas, entregou-se à inércia. Sentiu seu abdômen tomado por um líquido quente e percebeu que era seu próprio sangue. Entre as pernas, sentia o esperma do homem ressequindo suas coxas. Incrivelmente, aquilo agora não tinha a menor importância.

Ela queria gritar, chorar e sair correndo, mas era impossível. O tempo estava passando e ela sentia que o próprio ato de respirar estava lhe causando dor. O olhar mantinha-se na luz suave da lua que aparecia timidamente entre as árvores. Quando a sua visão começou a diminuir ela teve a certeza de que era a última vez que veria aquele brilho.

Pensou em seu namorado. Em seus pais. Em sua irmã grávida. Nunca mais os veria. Nunca conheceria seu sobrinho Felipe. Pensou na barriga linda da irmã, a qual já havia beijado muitas vezes. Pensou no enxoval do seu sobrinho. E seu sonho de ser mãe? E os pedidos de desculpas que estava devendo ao namorado? E quem lavaria a louça suja na pia de sua casa? E o relatório para o chefe? E seus planos de fazer um mestrado? Nunca mais veria a praia. Então por que havia se preocupado tanto com a barriguinha indesejada? O coração estava batendo fraco. O corpo lutava ferozmente, mas a batalha pela vida estava sendo perdida.

Cantou sussurando uma de suas músicas preferidas*, enquanto uma lágrima escorria de seu rosto:

What started as a whisper,
Slowly turned in to a scream.
Searching for an answer
Where the question is unseen.
I don't know where you came from
And I don't know where you've gone.
Between darkness and the door
Amen omen,will I see your face again?




Continuou cantando cada vez mais fraco. O som estava inaudível até mesmo para seus próprios ouvidos. Sorriu ao pensar que a sua morte havia tido trilha sonora. Parou de sorrir ao lembrar que ninguém assistiu ao show do fim da sua vida.  
De repente, sua visão desapareceu e o mundo ficou totalmente em silêncio. Ela gritou alto, esgotando todo o ar de seus pulmões e rasgando suas cordas vocais. Gritou alto, como nunca imaginou que seria capaz. Foi seu último sopro de vida.


*Música: Amen Omen (Ben Harper)


7 comentários:

Michele P. disse...

Um conto para fazer pensar.
A vida é uma viagem.O problema é que nunca sabemos em que parada desceremos.
Apreciar a paisagem e as pessoas que encontramos pelo caminho, é fundamental.

Beijos

Luna Sanchez disse...

#Tensa

A vida é preciosa e rica, mesmo com barriguinha, louça pra lavar, relatórios pra fazer, poucas horas de sono...Tudo isso se resolve, só mesmo pra morte não tem solução.

Gostei do conto, Mi. Forte e muito bem escrito.

Um beijo.

Anônimo disse...

Mirella,

Muito, muito forte esse conto... de tudo que já li aqui, nenhum dia me senti assim...sensação de desconforto, incômodo...mas ao mesmo tempo curiosidade... entretido ao ponto de parar no meio do conto para escutar a música e só depois continuar a leitura!!!!Eu resumo seu conto com uma palavra: "visceral"

Não sei o que a levou a escrever sobre isso...mas nunca podemos deixar de fazer o que queremos e temos que nos preocupar menos com as banalidades do dia a dia...

Sempre pode ser o nosso último dia!!

I don't know where you came from
WHEN will I see your face?

Parabéns pelo conto e bom fim de semana!

Maxwell Soares disse...

Excelente conto. Um blogger a ser seguido. Fica o convite para vejas o meu... até

Eraldo Paulino disse...

Nossa..

Senti a tenção de cada palavra.

É incrível como a gente fica torcendo pra algo bom acontecer até o fim que mude o fim que se desenha.

Este é o lado ruim da vida real = ser real.

E pensar que tal angústia, na íntegra, é vivida por tantas mulheres, vítimas da covardia e da visão animal que muitos homens tem da sexualidade.

Excelente, querida!

Bjs!

Vanessa disse...

Tenso. Profundo. Real.

Mirella de Oliveira disse...

Mi,
A vida é tão efêmera, não é? Nunca se sabe mesmo, como você bem disse. Pensar nisso me dá um nó na garganta. Vamos aproveitá-la da melhor maneira! Beijo :D

Luna,
Acho que a gente tem que parar de reclamar do que nos incomoda e partir pra luta. Pensar que, apesar de tudo, estamos vivos. E isso é uma bênção tão grande! Obrigada, que bom que gostou. Beijão

Anônimo,
Visceral. Adorei isso! Olha, você captou muito bem o que eu quis passar com o texto. E não houve motivo pra que eu o escrevesse. A ideia surgiu ao voltar do trabalho, ouvindo essa música. Nem eu sei o porquê. Só sei que me emocionei (de verdade) ao escrevê-lo. Feliz com teu comentário. :D

Maxwell,
Obrigada. Que bom que gostou. Vou passar lá no teu pra espiar! Beijo ;)


Eraldo,
Sim, é muito angustiante. Sabe, eu senti como se estivesse vivenciando cada linha. A boba aqui até chorou ao escrever. Quem chora do que escreve?? rsrsrs Só eu mesmo. Mas me emocionou justamente por pensar que isso acontece tanto! :(Beijão, querido!

Vanessa,
Infelizmente, real. ;)