sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O motivo


O caso é que eu me importo muito com a opinião de algumas pessoas. Falo das pessoas por quem tenho imenso respeito e admiração (apenas dessas). Eu pedi a opinião a uma dessas pessoas, um amigo, sobre o meu conto ("O fim que ninguém viu", logo aí abaixo). Ele disse que o conto era muito bom como texto, mas que o conteúdo o incomodou. Disse que não suporta a ideia de violência contra mulheres e crianças. Eu disse que concordo e que também sou assim. Eu sou mulher e mãe, pense! Mexa com meus filhos e eu viro um monstro! Disse-lhe ainda que chorei ao escrever o texto, como se estivesse vivenciando cada linha. Como se eu mesma fosse a personagem. Aí ele me fez uma pergunta: "Mas por que você escreve essas coisas? Existem tantas coisas bonitas para se escrever..."

Bom, ele fez a pergunta, mas não me deu chance de resposta, pois precisou sair logo em seguida. Se tem algo que me deixa neurótica é uma pessoa (daquelas com quem me importo) me indagar, sem que eu tenha chance de defesa resposta! Eu acredito que ele nem se lembre mais da pergunta, ou isso seja tão indiferente a ele que a resposta não o importe. Mas a mim, importa! Preciso responder! rsrs

Fiquei pensando. E tenho a resposta. Pode não ser a mais bonita e elaborada, mas é a sincera. É o que vale, né? Sabe quando você fica obcecada por UMA música por dias e dias? Eu sou assim. Cismo com uma música e ouço até enjoar. Foi o que aconteceu com "Amen Omen do Ben Harper". Estava ouvindo (pela milésima vez) ao voltar do trabalho. E essa história me veio à cabeça. Foi escrita mentalmente e racionalmente. A emoção veio somente ao passar pro papel. Eu poderia lhes dizer que escrevi o texto pensando em uma causa maior, pensando em tantas e tantas mulheres que sofrem com a violência desses seres (não são homens e muito menos pessoas, que fique bem claro). Mas não foi.

Obviamente, quem leu conscientizou-se. Acredito que a morte seja um dos momentos mais importantes de uma pessoa. Tanto quanto o nascimento. Eu me coloquei no lugar daquela mulher. Viveu, amou, chorou, sorriu. Tinha família, amigos, namorado... Pessoas que a amavam verdadeiramente. E quem viu seu fim? Quem estava lá, compartilhando seu sofrimento, segurando sua mão, chorando por ela? Quem estava lá, observando a sua dor e consciente de seus últimos pensamentos? Quem ouviu o seu grito de desespero? Quem ouviu o último som da sua voz? A minha história foi fictícia. A minha. E como a minha, existem milhões de histórias reais como esta. Infinitas vezes piores do que esta.

Então, é isso. Peço desculpas ao que sentiram incômodo com o meu texto. Mas nem sempre podemos beber apenas do doce e saboroso. Nem sempre podemos ver só o agradável aos nossos olhos. E nem sempre tenho vontade do "cor-de-rosa". Às vezes, minha mente "algodão-doce" e meu coração romântico querem a acidez do limão e o despojamento de um rock'n roll. Às vezes, minhas unhas imploram pelo black. Às vezes, por haver tanto amor aqui dentro, eu prefiro os filmes de terror. Mas que mantenham-se, por favor, na ficção.


4 comentários:

Luna Sanchez disse...

Respeito a opinião do teu amigo mas acho que tu deve deixar a inspiração vazar pelos dedos e chegar à tela, independentemente do estilo do texto. Escrever é uma arte e um alívio e nem sempre as nossas linhas retratam nosso estado de espírito de forma literal.

Achei o texto muito bom, como comentei lá, e válido toda a vida, porque foi um momento teu.

Beijos, Mi.

Mirella de Oliveira disse...

Luna, eu também penso assim. E meu amigo escreve muito bem... Tenho certeza de que ele pensa como nós. O que aconteceu foi que ele, pessoalmente, se sentiu incomodado. E, pensando melhor, talvez isso seja até um elogio, pois quer dizer que o texto está tão realista a ponto de causar incômodo, não é? A pergunta dele foi legal, me fez pensar... O que nos leva a querer escrever sobre algum assunto? Cheguei a conclusão que nem tudo faz sentido mesmo. Aquele conto não fez. :D Beijos, Luuu

Anônimo disse...

Mirella,

Acredito que por mais que muitos que comentam aqui sejam seus amigos, você não deve justificar nada. Ninguém é obrigado a ler....Você não desrespeitou ninguém no texto e não fez apologia ao crime ou a violência feminina....e se incomodou tanta gente é porque foi ÓTIMO!!!

Qndo eu vejo um filme na televisão ou leio um livro e fico com ódio da personagem, quer dizer que eu consegui ser tocado. E nem por isso se eu encontrar o autor na rua vou ficar discutindo com ele...

Com certeza tudo que nos tira do que chamamos de "zona de conforto" incomoda MUITO.

E mais eu me senti incomodado com o comentário desse seu amigo também...defendo a autora do blog: aqui é um local democrático e todos tem liberdade de expressão...mas sempre mantendo o respeito. Se algum dia vc não puder escrever algo aqui pq fulano ou ciclano não vão gostar prefiro não acompanhar mais sua vida literária...da mesma forma que qndo eu não puder da manifestar minha opinião quer dizer que chegou a hora do de acabar a relação autor e leitor desse blog.( ESPERO QUE ISSO NUNCA ACONTEÇA!!!)

Bom é isso - MAIS UMA VEZ PARABÉNS E CONTINUE ASSIM.

Grande abraço,

O Anônimo.

Mirella de Oliveira disse...

Anônimo,

Talvez EU não tenha me expressado bem. O que acontece é que eu pedi a opinião do meu amigo. Fui eu quem pediu. E ele, sempre sincero, deu sua opinião. Ele elogiou e disse que está muito bem escrito, mas a temática não lhe agrada, do mesmo modo que uma pessoa pode não gostar de um filme de terror, por exemplo. Eu sei que não preciso dar explicações do que escrevo no meu blog, mas eu tive vontade. A pergunta feita pelo meu amigo me fez pensar... E eu escrevi o post tentando entender o que me fez escrever aquele conto. Curiosidade minha, mesmo. De qualquer forma, muito obrigada pelo teu carinho! Beijão