quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Cartas ao vento






Tô fora! Desisto! -Esbravejou ela num ímpeto de fúria, ao mesmo tempo em que se levantava subitamente da cadeira cômoda e confortável. Já estavam há muito tempo ali jogando. Ela de um lado e ele do outro da mesa cujo material, cor e estado de conservação não saberia essa mera narradora informar. Ela havia proposto o jogo. Ele, timidamente, talvez até inconscientemente, aceitou o desafio e, com isso, as regras implícitas. Ela deu as cartas, mas só porque estava do outro lado da mesa. Aquela barreira entre os dois a enchia de coragem. Coragem para ser ela mesma, coragem para jogar limpo, coragem para expor suas vontades. Ela gostava disso. Gostava de dar as cartas. Gostava da transparência das "cartas na mesa". Deu as cartas e iniciou o jogo com cautela e minúcia. Sempre fora muito cautelosa. Sempre jogou como se estivesse pisando em ovos. Ele, por sua vez, jogava como se aquilo não fosse importante. Esta era a maior e mais dilacerante discrepância entre eles: ela jogava como se a sua vida dependesse disso; ele jogava como se a sua vitória em um jogo dependesse disso. Fato era que ela não jogava tão bem quanto ele e, por isso, abusava de estratégias (falhas). Durante toda a partida, ela se insinuava e tentava chamar a atenção para si. Ele ocasionalmente percebia e esboçava um sorriso. Isso a desconcertava e o feitiço virava-se contra o feiticeiro: jogava mal, deixava que ele pontuasse e inevitavelmente ganhasse a partida. E ele vencia, sucessivamente e sem esforço. Uma, duas, três... onze partidas vencidas por ele. Nenhuma por ela. Ele não alterou nem mesmo seu ritmo cardíaco. Ela, porém, suava freneticamente. Ah, como gostava de jogar com ele! Como queria ter tido o gosto de vencer ao menos uma... uma partida que fosse! Mas ele não dava brecha, corria desenfreado à frente de sua rival. -Hahahahahaha rival! Como sou rival desse homem? Mal resisto ao seu charme... Pensava ela, mais uma vez distraindo-se e perdendo o foco. Perdeu a décima segunda partida. Cansou. A dor de estar jogando (sim, havia dor, mas ela tinha essa mania de pensar só nas coisas menos sufocantes do todo) estava ficando insuportável. A vida esperava por ela, não dava mais para ficar ali jogando, à espera de um milagre, enquanto as horas escorriam criminosamente pelo relógio, asfixiando o que restava de sua vida. Por mais cômodo e confortável que fosse seu assento, não dava mais. Deu um basta. Sem pestanejar, proferiu as dolorosas palavras do início desse texto. Ele olhou para ela com cara de paisagem. Para ela, entretanto, era uma expressão tão linda que ele até merecia ser preso, por atentado ao pudor. Pensou nisso, mas a efemeridade do pensamento logo o consumiu. Levantou-se, deu as costas e caminhou. Parou por um momento e retornou em direção à mesa. Apoiou as duas mãos na mesma e olhou no fundo dos olhos do sujeito. Um olhar tão profundo que o atravessou e o deixou sem ação.  Socou com força a mesa e disse -Você não percebe? Por que não se deixou levar? Por que não me deixou ganhar? Não percebeu que, nesse caso, perder é ganhar? (...) É... Já sei a resposta. Afinal, foram doze jogos, não é? Doze erros. Seus erros. Com a mão direita, ela furiosamente espalhou as cartas sobre a mesa, que voaram e dançaram ao sabor da brisa fresca que anunciava o início de um novo dia. Um novo dia na vida daquela mulher. E ele? Perdeu. Doze partidas. Doze chances de ser feliz. 


4 comentários:

Vanessa disse...

Eu ADORO o jeito como vc escreve!

Bjo

Eraldo Paulino disse...

Nuss

ta ficando cada vez melhor isso aqui. Sem demagogia ou pretensão nenhuma vou dizer o mesmo que disse em outro blog a pouco: me identifiquei tanto que por um momento achei que eu pudesse ter escrito isso.

Teu estilo ta ficando cada vez mais definido e perceptível

Bjs!

Luna Sanchez disse...

Ele, em 5 caracteres : parvo.

Nada mais.

* Adorei, Mi, li em um só fôlego.

Beijos, querida.

Michele P. disse...

Mi

Como disse o Eraldo, você está escrevendo cada vez melhor. Adorei o conto, digno de uma publicação. Digno de um concurso! Por que não participa de um, hem? Se quiser, te mando alguns links.

Saudadona de você e das nossas conversas. Estou numa fase maravilhosa e queria repartir com você isso, te enviar energias positivas, fazê-la sentir a minha alegria! :)
Fica bem, tá?

Beijos