quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Amor antigo



O meu amor por ele é coisa antiga. Na oitava série, bem me lembro, eu sentava perto da janela e lá fora, eu o via, o observava e o sentia. Viajava sem sair do lugar, apenas percebendo-o. Na volta pra casa, percorria um longo caminho, e lá estava ele, muitas vezes presente, acompanhando-me. Passava por mim e atravessava o meu corpo sem sequer notar que me chacoalhava internamente. Mexia com meus instintos e perturbava a minha lucidez, sem o mínimo de esforço. Totalmente envolvida por ele: assim eu sempre me senti. Cada pedacinho, cada célula. Corpo, mente, alma, vísceras. Embebidos naquela sensação. Quantas vezes eu não fiquei na janela de casa somente para vê-lo passar! Quantas vezes eu demorei a adormecer ou demorei a levantar da cama só para ouvir o seu som! Em quantos invernos rigorosos eu estava lá, de meias e roupa de pijama, com uma caneca de café quente nas mãos e cabelo bagunçado, acordando para um novo dia e olhando-o na janela. Ele sempre foi bem-vindo, mas eu preferia assim, no início, bem no início da manhã. Todo o barulho adormecido, o ar revigorado pela ausência do sol, o cheiro úmido dizendo a mim que o dia era só meu... era assim que eu gostava de vê-lo passar. O mundo em silêncio e ele impondo o seu som. Éramos só nós dois. Eu, a dona daquele momento. Ele, o meu grande espetáculo. Por vezes, arriscava-me a vê-lo na pele, na carne, na cara e na coragem. Sem a barreira transparente de janela entre nós. Lá fora. Só eu e o vento. O nosso momento.




domingo, 25 de dezembro de 2011

Recesso pessoal



Estou há tempos querendo escrever aqui. Eu gosto, eu preciso, me faz bem. Mas ando em uma fase introspectiva (ainda mais). Ando em uma fase de poucas palavras. Ando em um "recesso pessoal" de fim de ano. Acontece que o ritmo natalino e de festas e mais festas não coincidiu com a minha fase atual. Mas está tudo certo, o natal foi e está sendo bom, ao lado da família e dos meus filhos, e é isso o que me importa. Apesar da preguicinha biológica por aqui, estou muito animada e com muitos planos para 2012. Planos inéditos, projetos cuidadosamente elaborados e prontinha para alçar voo. E, no mais, apesar dos planos, dos cálculos e das estratégias, também quero contar com o acaso. Porque deixar fluir também é mágico e gostoso. E não, não quero me privar de ser levada ao sabor do vento. Então, é isso... ando quietinha aqui, com meus botões. Trabalhando muito até o fim de janeiro, quando entro em férias. Mas sossegada, felizmente melancólica (sim, é possível) e empolgadíssima para as boas novas que virão. Inevitavelmente virão. Não sei se volto a postar antes do ano novo, por isso já quero desejar, de coração, um 2012 maravilhoso para vocês que me leem por aqui, viu? O meu vai ser, no que depender de mim (e a gente sabe que na maior parte das vezes depende mesmo). Espero muito, muito, muito que por aí seja também.


Descanso do natal, porque eu mereço.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Umas verdades



Oi, prazer, eu sou a Mirella e não me escondo atrás de máscaras. Não sou perfeita e nem estou perto disso. Não tenho pensamentos santos o tempo todo e todos os dias eu erro um pouquinho, no que quer que seja. Sabe os sete pecados capitais? Eu cometo todos. Não falo o que você quer ouvir, não rio se não tenho vontade. Não concordo, se não tenho a mesma opinião. Não faço tipo e detesto joguinhos. Sabe essa pessoa aqui do outro lado? Talvez você a conheça pessoalmente, talvez não. Talvez você goste dela, talvez não. Eu não me importo. Juro que não. Acho a verdade coisa linda de se ver. Deve estar estampada na cara. SEMPRE. Nua, crua, com cores vivas que parecem que sairão gritando a qualquer momento. É a condição pra ter meu afeto e pra fazer parte dos "meus". Comigo é cara limpa. Comigo as cartas têm de estar na mesa. Não gosto de indiretas, acho coisa de moleque. Está incomodado com algo? Fala, sem rodeios e sem blablabla. Educação e respeito? Sempre, mas com verdade de acompanhamento. Ou então, engole essa tua verdade enrustida e me erra.

domingo, 18 de dezembro de 2011

She will be loved








Beauty queen of only eighteen, she

had some trouble with herself
He was always there to help her, she
always belonged to someone else

I drove for miles and miles
And wound up at your door
I've had you so many times
But somehow, I want more

I don't mind spending everyday
Out on your corner in the pouring rain
Look for the girl with the broken smile
Ask her if she wants to stay a while
And she will be loved 

Tap on my window, knock on my door
I want to make you feel beautiful
I know I tend to get so insecure
It doesn't matter anymore

It's not always rainbows and butterflies
It's compromise that moves us along
My heart is full and my door's always open
You can come anytime you want

I don't mind spending everyday
Out on your corner in the pouring rain
Look for the girl with the broken smile
Ask her if she wants to stay a while
And she will be loved - 

I know where you hide
Alone in your car
Know all of the things that make you who you are
I know that goodbye means nothing at all
Comes back and begs me to catch her every time she falls

Tap on my window, knock on my door
I want to make you feel beautiful

I don't mind spending every day
Out on your corner in the pouring rain, oh
Look for the girl with the broken smile
Ask her if she wants to stay a while
And she will be loved 
Please don't try so hard to say goodbye

(Maroon 5)


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Descobre...



Chuva intensa e gelada. Caía verticalmente, sem vento nem brisa, típica daquele verão que açoitava a cidade em janeiro. Os dois corriam lado a lado, procurando abrigo em local seco. Ele gritou e sorriu enquanto corria, tentando ser ouvido em meio ao barulho da água:

-Eu te dou casa, comida e roupa lavada, gata!

(-Mas que cantada de moleque! Ela, pensou.) E disse, também gritando e sem diminuir o passo: 

-Ah... e será que tu serias capaz de me dar o que eu realmente quero?! E caiu na gargalhada, em tom de desdém!

-Gata, me diz o que tu quer! Sou capaz de muita coisa por ti!

Ela sorri e congela por dentro, sem conseguir entender a própria reação: 

-Hmmm... - Tentava dizer algo, mas antes de ter tempo de organizar o pensamento, ele a puxa pela mão:

-Shhhh - Ele diz, ao mesmo tempo em que a encosta num muro próximo e pressiona o seu corpo contra o dela.   Tirou uma mecha de cabelo molhado que lhe tapava a face esquerda e a beijou com suavidade, como se estivesse beijando algo muito frágil. Um, dois, três beijinhos suaves na bochecha. Olhou nos olhos dela e beijou-lhe a boca, agora com força, com vontade, pressionando ainda mais o seu corpo contra o dela. Ela cede e beija também, sentindo suas pernas amolecerem e o corpo dele pesar, aquecendo, aconchegando, excitando o seu. A água gelada que caía em sua pele contrastava com as mãos e o corpo quente dele, de modo que ela não conseguia mais raciocinar.

-Me diz, gata. O que tu quer? - Ele dizia, sussurando no ouvido dela e beijando-lhe o pescoço.

-Eu... (ela tentava dizer, sem êxito). Sentia a língua dele acariciando seu pescoço e as mãos masculinas percorrendo a lateral do seu corpo. Perna, virilha, barriga... seios. Ele apertou um dos seios, com firmeza e suavidade. Seguro de si. Louco. Louco por ela.

-Des...cobre... por favor, descobre... - Foi só o que ela conseguiu sussurrar.





A moça


A moça tem 29 anos e o seu nome, sinceramente, não tem importância. Ela é muito bem casada e tem uma filha pequena. A moça, há 6 meses atrás, era linda, cheia de vida, trabalhava, cuidava da casa, da filha, do marido. Era inteligente, simpática e feliz. Aí a moça começou a se sentir mal. Uma febre leve, um mal estar. "Uma virose", disse o médico. Continuou seus afazeres diários, mas passadas algumas semanas, nada da febre sumir de vez. O médico sugeriu algumas vitaminas, uma alimentação mais saudável e "tchau-e-benção". Sem perceber, estava emagrecendo. Cinco quilos no primeiro mês. Mais cinco quilos no segundo mês. Começou a ter dispneia aos pequenos esforços (vulgo "falta de ar"). Bateria de exames. Sangue, urina, fezes. Nada de errado. Vinte quilos perdidos em seis meses. Sem explicação. Ela, que era linda, estava parecendo anoréxica. Sabe-se lá o que fez com que o médico solicitasse uma radiografia de pulmão. Gelou ao ver o exame. Nódulos em estado avançado. Biópsia solicitada. Câncer de pulmão. Em estágio muito avançado. Irremediável. Intratável. Fatal. Internou-se há uma semana. Perdeu mais vinte quilos nesses sete dias. Não, vocês não gostariam de vê-la. Uma risada mais forte, um choro mais intenso ou algumas falas mais demoradas já são o suficiente para que a respiração lhe falte e para que um líquido seja regurgitado. Os médicos falam em dias. "Meses" é tempo demais. A filha faz três anos dentro de dez dias. E eu... eu me limito a narrar a história. Não tenho o que comentar a respeito. Nem sei por que escrevi. Talvez pra mim mesma. Refletir? Orar? Revoltar? Repudiar? Não sei.  

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Recuo



Sinto o início de uma nova era. Pressinto o surgimento de novos ares, novas pessoas, novos cheiros, novos lugares, novas comidas, novos amores, novas delícias. Vejo a manutenção apenas da minha essência. E vejo mudança de hábitos. Vejo flores coloridas, vejo neve clara. Vejo vida de verdade. Vejo cultura, informação, tesão. Vejo amor, carinho e cuidado. Eu sinto, eu percebo, eu calculo e não tem como errar. É só observar com atenção. Em silêncio. Você percebe o recuo. Não  confunda, não é regressão. É impulso. Como a rasante da maré anunciando o tsunami. Como um atleta que se prepara para saltar. Eu sinto o cheiro. Cheira a terra molhada, cheira a início de chuva, cheira a maresia, cheira a café... Eu sinto o silêncio no ar. Silêncio que fala. O vento grita e anuncia a mudança. É uma explosão iminente. Vai... vai acontecer. E eu choro. Choro um choro compulsivo, triste e saudosista. Por um passado que se foi. Por toda uma bagagem velha, gasta e empoeirada. Por todo um apego idiota que sinto pelo antigo. Choro para lavar a sujeira do que já era pra ter ido. Choro porque percebo que findou. Choro até que as lágrimas terminem a limpeza. E reajo. Reajo em silêncio. Recuo, recuo muito. Sinta medo...  o impulso será maior do que imagina.







quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eu vou




Não gosto. Definitivamente, eu não gosto de sufocar meus sentimentos bons. E pretendo não ter que fazê-lo repetidas vezes na minha vida. Deixem que eu ame! Deixem que eu deseje! Deixem que eu pire! Deixem que eu queime, que eu arda, que eu seja deliciosamente consumida pelo tesão. Eu quero vida de verdade. Quero crise de riso, quero abraços apertados, quero lágrimas de emoção, quero realizar sonhos profundos, quero olhar nos olhos e dizer: eu não acredito que isso está acontecendo! Quero banho de chuva, quero tempestade, quero ventania cortante, quero o cheiro de café pela manhã, quero ler embaixo das cobertas, quero mais! Deixem que eu fale, escreva, grite, ligue, chore, ria, emocione. Eu decidi: eu vou. Como se estivesse pisando em ovos, sempre. Mas vou. Parar será sentença de morte. Não vou parar. Vou... e vou com o coração na mão direita, pulando como peixe fora d'água. Com a adrenalina correndo nas veias. Com o sorriso estampado na cara. Euforia e desespero. Eu vou, eu sempre irei. Os segundos correm, não dão trégua. E quem disse que eu darei trégua aos segundos?  Vou lutar enquanto respirar. Mais do que viver fisiologicamente, vou viver verdadeiramente. Vou sentir. Vou sentir absurdamente! Não tente jogar água no meu fogo, você não é capaz! Eu quero gasolina. Eu quero explodir em sentimento. Eu quero vida incandescente! Eu quero queimar. E eu vou conseguir... Eu quero e, mais do que isso: preciso.



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Trabalhar, trabalhar...


Eu sempre saio pra trabalhar bem cedinho, lá pelas seis e meia da manhã, já que começo a trabalhar às sete. Na maioria das vezes, as crianças ainda estão dormindo. A Maria é uma criança super apegada a mim. O João também é, mas como ele já está grandinho, dorme feito uma pedra (como o pai) e acorda numa boa. Mas a Maria não. Se ela acorda, geralmente ela chora e me chama, quer que eu deite do lado e me abraça pra poder voltar a dormir. E um dias desses ela acorda NA HORA em que eu estava saindo pra ir trabalhar. Eu, mesmo mega atrasada, não tive outra alternativa, tive que ir lá. Ela percebeu que eu estava de saída e, aos prantos, começa a falar:

-Mãããããe, não vai pro teu trabalho!!! (lágrimas, muitas lágrimas)

-Mas a mãe tem que ir, filha! Senão a chefe da mamãe não vai mais querer que a mamãe trabalhe lá!

-Nãoooo, mãe... não vai pro teu trabalho! (choro, muuuuuito choro)

Não tive outra alternativa. Tive que apelar:

-Mas, Maria... se a mamãe não for, a mamãe não vai mais ter trabalho... Não vou mais poder ir ao mercado comprar as coisas que tu gostas de comer, não vamos mais poder ir ao cinema nem ao shopping, não vou mais poder comprar roupas pra ti, brinquedos... Nem a escolinha a mamãe não vai mais poder pagar... Hummm, pensando bem, Maria... dá um espacinho aí, não vou trabalhar, não. Vou ficar aqui deitada com você!

-... (Maria pensativa, sem choro) ... (Choro recomeça) Nãããão, mãe! Vai JÁ pro teu trabalho! (Apontando com o dedo pra porta do quarto). -Vai  já! Rann!! (Bico!)

Rá! Essa aí é esperta, viu? Aprendeu rapidinho o valor do trabalho. Não é à toa que saiu de mim, rs. Óbvio que, pra mim, meu trabalho vai além de dinheiro (até porque não ganho muito). Existe a satisfação pessoal que tenho com minha profissão. Mas, sério: não ia colar esse argumento com uma menina sonolenta de quatro anos. 

Nesse dia, mereceu até um presentinho na hora do almoço. E, o principal: muitos beijos, abraços e "ataque de cócegas" (mas não muito, porque senão -eu faço xixi, mãe- hahahaha)


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sintoma como diagnóstico. Até quando?



Caro Dr. ortopedista,

Gostaria de pedir humildemente a você um pouco mais de atenção ao preenchimento das requisições para o atendimento de fisioterapia. Em especial ao item mais importante para nós, os fisioterapeutas: o diagnóstico médico.
Todos sabemos que para um tratamento fisioterapêutico adequado é necessário saber exatamente qual o diagnóstico médico do paciente. Eu sei que você tem ciência do que direi a seguir, mas sempre é bom ressaltar: sintoma NÃO é diagnóstico. Lombalgias, ciatalgias, cervicobraquialgias, edema de membros inferiores, fraqueza muscular de membros superiores... Tudo isso são sintomas. Algo está causando esses sintomas. O que está causando esses sintomas, doutor? Uma lombalgia pode ser desde uma desordem musculoesquelética até um tumor. E os tratamentos, dependo do diagnóstico, são totalmente opostos. Eu não posso tratar dor, edema, fraqueza e limitação funcional se eu não sei a causa dos mesmos. Peço, por favor, mais atenção a isso. Não aprendi na faculdade a utilizar a bola de cristal.

Atenciosamente (e pacientemente),


Mirella R. de Oliveira