quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Amor antigo



O meu amor por ele é coisa antiga. Na oitava série, bem me lembro, eu sentava perto da janela e lá fora, eu o via, o observava e o sentia. Viajava sem sair do lugar, apenas percebendo-o. Na volta pra casa, percorria um longo caminho, e lá estava ele, muitas vezes presente, acompanhando-me. Passava por mim e atravessava o meu corpo sem sequer notar que me chacoalhava internamente. Mexia com meus instintos e perturbava a minha lucidez, sem o mínimo de esforço. Totalmente envolvida por ele: assim eu sempre me senti. Cada pedacinho, cada célula. Corpo, mente, alma, vísceras. Embebidos naquela sensação. Quantas vezes eu não fiquei na janela de casa somente para vê-lo passar! Quantas vezes eu demorei a adormecer ou demorei a levantar da cama só para ouvir o seu som! Em quantos invernos rigorosos eu estava lá, de meias e roupa de pijama, com uma caneca de café quente nas mãos e cabelo bagunçado, acordando para um novo dia e olhando-o na janela. Ele sempre foi bem-vindo, mas eu preferia assim, no início, bem no início da manhã. Todo o barulho adormecido, o ar revigorado pela ausência do sol, o cheiro úmido dizendo a mim que o dia era só meu... era assim que eu gostava de vê-lo passar. O mundo em silêncio e ele impondo o seu som. Éramos só nós dois. Eu, a dona daquele momento. Ele, o meu grande espetáculo. Por vezes, arriscava-me a vê-lo na pele, na carne, na cara e na coragem. Sem a barreira transparente de janela entre nós. Lá fora. Só eu e o vento. O nosso momento.




2 comentários:

Maela disse...

Amo o vento!

Lindo o texto.

Feliz 2012 sua linda!

Michele Pupo disse...

Cronista de mão cheia! Adorei.

Bjs