domingo, 30 de dezembro de 2012

2013 cheio de mim


Iniciar um novo ciclo me entusiasma, me enche os olhos com o brilho do sol, me enche de mim. Quando se aproxima, tudo o que é meu se prepara com zelo pra nascer de novo. Eu já nasço de novo, todos os dias, a cada manhã. O sol nasce mesmo quando chove, 'e sempre chove vida quando nasce o sol', é o que costumo dizer. Mas este... este é o ciclo dos ciclos. E não é porque alguém um dia dividiu assim e assim impôs. Não, não. Quem sabe de mim também sabe que não sou quase nada levada pela vida de mãos dadas com "as regras impostas porque alguém um dia disse que era assim que tinha quer ser". De novo: não, não. Gosto deste ciclo dos ciclos porque ele tem um poder absurdo sobre mim. Tudo o que é meu, repito, se prepara. Começa com a agenda, desta vez ganhada de presente, linda e limpa, com o ano impresso: 2013; tela em branco pra minha pureza leviana, pros meus caminhos tortos e lindos, pra minha safadeza delicada, pra minha molecagem que se faz arte e que transformo e chamo com o peito estufado de "minha vida". Começa assim, um ciclo objetificado... e vai até a minha mente, corpo, casa, pessoas ao redor, implodo e explodo, cheia de planos, tudo fica a postos. O coração se enche de euforia e retrocede o ciclo anterior, deixando no meu ar um cheiro de melancolia. E eu penso, reflito, vislumbro meu trajeto do começo até aqui, o quase fim. Vejo que talvez tenha chorado por amor e desejado uma boca nunca tocada. Vejo que talvez não tenha perdido os quilos almejados. Mas talvez tenha perdido medos, ganhado conhecimento, aprendido um pouco mais uma língua inata. Vejo que tracei percursos errados em alguns momentos... mas tracei um caminho, não parei. Talvez eu não tenha viajado tanto como tenha desejado... ou talvez não riscado nem metade da lista de planos pra 2012; aqueles, cujas letras ofuscantes em neon saltavam ao meus olhos na agenda já considerada velha, mês a mês. Mas, veja só o que vejo também: vejo que talvez eu tenha me transformado mais em mim. E, poxa! É tão difícil se chegar a ser quem se é de verdade! E o ciclo está aí. Anteninhas internas já farejam o cheiro bom. O cheiro de novo... da agenda. E do próprio ano. 365 chances de ser eu. E, meu Deus, como eu sou infinita!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Dorme, meu bem.



Deletou tudo. Havia escrito umas bobagens clichetosas. É, clichetosa. Do Mirellês "provido de clichê". Neologizou nesta segunda escrevinhada. E nem se importou com o fato de se fazer de "deusa da gramática". Criou palavras, escreveu diferente de tudo-e-de-todos... e foda-se, que ela estava era feliz por ser autêntica. Estava tendo ultimamente profundo tédio com as repetições melódicas, filosóficas, sentimentais, banais e cotidianas. Citação de autores de livros sequer lidos, lugares-comuns, frases prontas. As pessoas vomitam ideias, pensamentos, letras; repetem coisas, dia após dia, acomodam-se dentro de si de um jeito tão confortável que adormecem. Adormecem dentro de si. Viram zumbis. Robôs. Se a gente passa distraído e não repara, parecem gente. Piscam, andam, tomam café, vestem-se padronizadamente e às vezes perfumam-se conforme conveniência social dos outros robôs. Sorriem, dão bom dia, falam do tempo. Parecem gente, mesmo. Até parece que pensam, se olharmos com um pouco menos de atenção. Mas são robôs, não pensam não. Dormiram no conforto comodista de seus umbigos. E quem dorme não raciocina. Quem está em coma aceita o que lhes é imposto. E se não for chacoalhado, aí é que é gostoso. Joguem pra eles suas ideias açucaradas,  deem-nos livros que embalem seus sonos, esfreguem em suas caras frases aleatórias de autorias duvidosas com palavras amorosas, vidísticas e pseudo-sábias. Nada que lhes desperte. Porque aí incomoda. Aí o bicho pega! 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Eu. Me. Curei. De. Você



Meu Deus! Como é gostoso dizer isso! Ela faz questão de escrever a frase do título pau.sa.da.men.te. E de saborear cada letrinha... cada fonema, cada movimento labial e lingual necessário pra produzir cada sílaba. Uma lágrima quase escorre de sua alma. Sim, da alma. Ela respira fundo e percebe que, junto com o ar, a vida também entra novamente pra dentro de si. A doença se foi. O fogo apagou. O controle da situação de volta em suas mãos. De onde nunca deveria ter saído. Que lindo! Que lindo! QUE LINDO!



4º Motivo da Rosa





Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos.
Ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

(Cecília Meirelles)






Li no instagram de uma amiga. E me perguntei: como eu ainda não havia lido isso? Um dos poemas mais lindos que já vi. Tenham uma excelente semana... 

domingo, 11 de novembro de 2012

O dia que foi lindo sem jamais ter sido...



Num dia, aquele que nunca chegou, provou pra todo mundo que não precisava provar nada pra ninguém. E, sufocada e presa por tamanha liberdade, gritou em silêncio, no meio do nada e sozinha, estourando os tímpanos de quem estava perto. Um silêncio estrondoso, tão alto que parecia um sussurro. Tão bonito que aterrorizava. Tão estranho que até parecia dela. Deitada, correu de si mesma. Seus olhos sorriam de tristeza. Sua boca gemia de amor. Despiu-se de roupa nenhuma. Sentia-se cansada da nudez escancarada das roupas pesadas. A louca sã terrivelmente encantadora. A mais familiar que jamais conheci. O paradoxo em forma de gente. Gente em forma de paradoxo. O gozo de dor. O desespero do despudor. Ela, que será eternamente, sem jamais ter sido. E nada... jamais... poderá mudar tudo. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Roubando vidas



Já ouviu falar desse filme? Quando eu sentei pra escrever aqui, sei lá, de repente o título dele me veio à mente. Já faz tempo que assisti. Lembro que adorei o final surpreendente com a linda da Jolie. Enfim, assistam um dia, se gostam do gênero policial vão gostar.
Roubando vidas. Roubando. Vidas. Eu não me importo se me roubam meus bens materiais. Eu trabalhei e eu posso trabalhar de novo pra conseguir o que você pegou de mim, filho da puta. E você, se a vida for justa, vai morrer na mão de quem te ajudou ou pela droga que você trocou pelo produto que era meu. Eu não te desejo mal. Só desejo justiça. E a justiça que te cabe e que eu citei ali em cima não é porque você roubou o meu microondas, a televisão da minha mãe e o meu computador. É porque você, seu verme, roubou a minha vida, as minhas lembranças, as fotos tão lindas e abundantes que eu nunca mais poderei rever. Os vídeos dos meus filhos engatinhando, aprendendo as primeiras palavras, dando os primeiros passos, cantando e dançando... os vídeos e fotos de passeios que se perderão na minha memória por falta de um fiozinho que as puxe. Eu não quero mais aceitar que o erro foi meu. Não foi. NÃO FOI! Eu tenho o direito de não ter feito um backup. Eu fui displicente, burra e mais um monte de adjetivos que até eu mesma criei pra mim... sim, eu fui. Mas não fui a culpada. Você roubou oitenta por cento das minhas fotos, todo o meu conteúdo da faculdade, muitos dados pessoais e uma vida quase inteira de armazenamento. Mas eu posso fazer tudo de novo . E eu sei que, se não for você, outros estarão aí fazendo com outras pessoas. E as pessoas fecham os olhos. "Normal", pensam. Não é normal. Não é normal invadirem a tua vida e roubarem tuas lembranças. Tocarem e arrebentarem com tudo, sem zelo, sem cuidado, sem amor com o que é teu. Tu suas, trabalhas, deixas de viver um pouquinho, de dormir, de sonhar, abdicas de algumas coisas em detrimento de outras... aí vêm e tomam de ti. E aí você se prende. E aí você tem medo e olha para os lados e fica taquicárdica com um barulho inesperado. E aí vai atrás de segurança, portas anti-furto, câmeras e o diabo... O diabo! Por que eu tenho que ter medo? Por que EU tenho que viver atrás de grades dentro da minha própria casa? É isso aí, população... continuem com pequenas corrupções, continuem votando pelos mesmos motivos de sempre... continuem de olhos fechados.




quinta-feira, 4 de outubro de 2012

E assim a gente vive...


Boa noite! Passo rapidinho e antes que eu seja consumida pela racionalidade que tem me esgotado nos últimos dias. Ela, a racionalidade, tem chegado rápido. E sucumbido. Estava indo pro banho agora. Mas antes, olhei uma foto... ou talvez tenha sido uma paisagem, ou a brisa gelada que entrou pela janela, ou aquela imagem perfeita de felicidade que carrego na minha bagagem. Não sei. Sei que alguma coisa linda e mágica me fez lembrar de como eu gosto de escrever. De me derreter em letrinhas. De como eu gosto de quem gosta do que escrevo. De como eu gosto das palavras e das viagens gratuitas que um bocado delas juntinhas proporcionam. Várias vezes eu pensei na vontade grande que eu tinha de vir aqui reescrever. Sempre que algo me espeta o sentimento, eu tenho vontade de vir aqui. Mas não dá, há prioridades, há um mundo a vencer, a praticidade e racionalidade a serem metodicamente colocadas em execução. A vida é uma guerra, amigos. E eu tenho sido mole. Mas isso não é problema, eu tenho aprendido tanto... Eu tenho estado intolerante e tenho achado isso bem benéfico a minha saúde. Intolerância seletiva. Arrancando pela raiz o que maltrata meu coração. Já aprendi muito e ainda não sei o dobro. E acho lindo ter consciência disso. A vida corre, o tempo ciclicamente morre. E eu aqui, matando os meus leões na paulada. Até o dia em que eu encontrar um veneno bem poderoso pra eles. E aí, sem suor e sem esforço eu cumprirei a meta da matança diária. Até lá, talvez eu tenha que reduzir a emoção e a inspiração das letras. Das letras, somente. E, o que não sai dos dedos, que se mantenha dentro e transborde pra quem merece. Ao menos razão e emoção os conhecem bem. Agora sim. Fiquem bem. Pirem, inspirem, suspirem. E se  não for pedir demais, vibre seus pensamentos aí na frequência de um veneno bem bacaninha pra leões malvados, tá? ;)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A conexão expirou



Suspira e tenta de novo. Mais uma vez. Uma. E duas. E três. Droga! A conexão expirou... Conecta a pecinha, aperta o fio, liga e desliga, tenta-de-no-vo. A conexão expirou. Mas por que ela tanto expira, ó céu, ó vida, ó azar? Conexão, ligue-se, minha filha (ela se vê conversando com a co-ne-xão): expiração é passiva. Larga mão de ser mané! Contrai logo esse diafragma, cria logo uma pressão negativa nesse pulmão que o deus das tecnologias te deu e, pelo amor dos deuses, INSPIRA! Alguém passa por perto e ouve o monólog... digo, conversa. Pensa que ela anda bem inspirada. É, inspirada ela sempre foi mesmo. Com ou sem prefixo. Seria a inspiração uma piração interna? 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Engoli a noite e ela se tornou parte de mim





E aí você engole a noite. Lá de cima, o vento te acaricia. Gelado, gostoso, envolvente. Por todos os lados, as luzes da noite te cercam. Te reverenciam. À direita, prédios com quadradinhos iluminados, algumas pessoas nas sacadas. À esquerda, luzes amontoadinhas, brancas, amareladas, azuladas, roxinhas. Um ponto vermelho mais acima indica um grande mercado. A cidade. Pessoas, pessoas. Boas, más, lindas, feias, sensacionais, banais. À sua frente, a passarela. Abaixo de você, seus pés Reais. A Realeza é você. Rainha de si. E você prossegue. Um pé a frente do outro, sem pressa e sem demora. Nos ouvidos, um som te embala. Cheiro de café invade as narinas. Mais a frente, o cheiro da comida do jantar. Algumas televisões ligadas no noticiário, um senhor fumando cigarro, uma moça saltando do ônibus de bolsa e celular no ouvido. Crianças rindo e bebês chorando. É a vida que não para. É a vida, incessante, pulsante, que continua altiva. Seu coração taquicárdico te mostra que você é o que está mesmo pensando que é. Rainha, realeza, princesa, especial. E você engole, preenchendo os alvéolos e cada célula pulmonar: de ar, da noite, de vida. Prossegue e percebe que não consegue conter o sorriso no canto do lábio. Uma lágrima quase cai, enquanto percebe que não precisa de grandiosos braços para se auto-abraçar. Contém o grito e ele implode: NÃO HÁ VIDA EXTERIOR SE ELA NÃO SE FORMA DENTRO DE SI!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Eu, por minha conta


A maturidade, percebo hoje, não é algo que vem de uma só vez e fica. A maturidade chega aos poucos, de mansinho. Dia após dia, a maturidade é depositada em nossa conta. Em nossas costas. Pensamentos tortos, preconceitos bobos, medos ilógicos. A maturidade vem e empurra tudo isso pra longe da conta, da vida e das costas. E ela nunca atinge a plenitude. E é aí que mora a "interessância" (criei agora- qualidade do que é interessante) da vida. Sempre seremos imaturos. Sempre seremos bebês em busca de desenvolvimento. É assim que deve ser. Eu estou melhor agora. Melhor que ontem. Muito mais mulher. Muito mais bem resolvida. Eu estou feliz. Um pouco insatisfeita com o resultado de algumas colheitas. Mas eu plantei arroz, como vou querer colher milho? E agora, é cuidar da terra e plantar direitinho o que eu quero. Viver do meu jeitinho. E me amar devagarinho.


Arquivo morto


Tenho tara nos teus detalhes. 

Salivo com o gosto que imagino em minha boca. 

Gosto do percurso que meus dedos traçam ao contornar os teus lábios. 

Desejo a forma dos teus dedos. 

Anseio pelo foco dos teus olhos nos meus.

 Devaneio e me lambuzo em teu mel.

 É você, que não passará de um projeto no papel.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Autoconhecimento


Eu sei muito sobre mim. E ainda tenho muito o que aprender. E assim tenho feito. Estou em constante processo de autoconhecimento. Sou a minha própria terapeuta. Vislumbro os caminhos, as causas e as consequências de meus atos e atitudes. Chata pra caralho! Acho maravilhoso, lindo, digno, assumir sem vergonha, ou até mesmo com, os seus próprios defeitos. Gente, eu tenho tantos! Eu sou indisciplinada, um tanto preguiçosa, embriago-me de teorias e dou pouca atenção à prática. Muitos dos meus problemas, tristezas, decepções e irrealizações vêm da minha baixa autoestima e da minha insegurança. Dou muito valor à minha aparência física e não consigo ser segura em nenhum quesito da minha vida pessoal nem profissional se não me sinto bem comigo mesma. Tenho um coração imenso, sou honesta até quando não tem ninguém olhando, mas por vezes julgo os outros e me irrito sem motivo. Sou romântica, muito até, mas não faço amor, eu gosto é de trepar! Tenho sonhos, muitos, lindos, doces, gigantescos, desses que dão frio na barriga ao pensar. Mas tenho uma mania horrorosa de incluir pessoas neles. E outra mania horrorosa de procrastinar...  Esse é um dos meus principais defeitos. Sou inteligente, gosto de estudar sozinha e de ler, ler, ler, ler, pra aprender. Sou confusa e indecisa. Mas, que se dane, eu sempre decido. Amo tudo o que faz meu coração acelerar. Amo o que me faz sorrir. Gosto de papo sério, gosto de bobagens. Rir até chorar me  põe nas nuvens. Nos relacionamentos, mergulho, me afogo, me doo e tenho que cuidar pra não me deixar. Sou diferente de qualquer mulher e ao mesmo tempo temos, elas e eu, muito em comum. Aprendi (e isso ainda está acontecendo) a não me importar com o que as outras pessoas pensam de meus atos e gostos. Nem sempre é fácil... e, sim, me importa o que pensam os meus amigos, pais e filhos. Sou pensativa e detalhista. Vivo e amo. Amo, amo, amo! Tenho defeitos, sou humana, sou do bem. E assumo. E tenho consciência de quem sou, de quem tenho sido e de quem quero ser. Estou aqui, de cara lavada, meio ressabiada, mas expondo a quem tiver interesse um pouco, bem pouco, de quem eu sou. Acho que, com um pouco mais de esforço, consigo chegar onde quero. Aliás, acredito fortemente nisso. De duas coisas, é o que preciso. Duas fundamentais: um pouco mais de esforço e muito menos medo. Medo, um monstro gigantesco que eventualmente me assombra. Que Deus o afaste. Que Deus "me" tenha. 

domingo, 22 de julho de 2012

Meu brinquedo


Zapeio por dentro de mim... gosto assim. Mudo as estações, brinco de Deus comigo mesma. Transmuto, transformo, enceno, aceno, sorrio, choro... sou meu playcenter. E vou, não sei se a sério ou na levada da brincadeira, do fundo ao ápice. Navego nos meus vales, voo por entre minhas montanhas e me escondo em minhas vielas. Arteira. Arteira de mim. Danço e canso. Tudo em um dia, talvez. Eu te dou a mão, se queres também brincar. Te deixo ser feliz em mim, mas conserve o meu brinquedo. É meu e só meu. Respeite e limpe tudo quando sair, porque meu brinquedo eu levo a sério. Faz por mereces e volta a ser criança comigo. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Não saltemos o risco de giz!

Para M. P.  e V.N.


Ela não sabia, mas inúmeros pensamentos borbulhavam na cabeça da amiga. Pensamentos felizes e saltitantes. "A felicidade definitivamente era isso", resumiam-se todos eles. O dia parecia ter sido cuidadosamente encomendando: temperatura, luminosidade, velocidade do vento... E quem diria mesmo que não foi? Ela também não sabia, mas a amiga prestara atenção aos meninos jogando bola na areia da praia e na singeleza do momento. A amiga estava "em casa" como nunca esteve. E, ao mesmo tempo, sentia-se turista e totalmente disposta a aventurar-se como estrangeira dentro do próprio habitat, sugando para si o tempo restante e exalando para as amigas tudo de bom que havia no lugar que tanto amava. Não acreditava piamente em destino, mas que tudo parecia ter sido minunciosamente planejado por mãos divinas, ahhh... parecia. De repente, de súbito, a amiga sentiu urgência em levá-la junto da outra amiga pelas mãos e correr a ilha, desbravando tudo e desbravando-se, num jogo louco, fugaz e lindo de aventura, emoção e euforia. "Vamos!", disse a amiga para ela e a outra. Ela não quis ir. Parecia ter sido tomada por uma serenidade e uma paz madura e bonita de se ver. E ali, a amiga entendeu. Pra que pressa, se podemos simplesmente parar o tempo, quando bem entendermos? A amiga teve quase certeza de que, se olhasse o relógio, encontraria o ponteiro parado, congelado e esperando o momento certo de reiniciar a contagem do tic-tac que esgota vidas. Estaria ele ali, esperando o momento certo. O momento delas. A amiga teve medo, não olhou o relógio. Preferiu devanear e abstrair. Sentou no banquinho e admirou o mar junto das duas outras. "Que lindo e sempre tão pertinho!" Já havia o vislumbrado tantas vezes, mas que graça tem a felicidade, se ela não é compartilhada? A amiga não sabia dos pensamentos dela naquele instante. E ela não sabia dos pensamentos da amiga. Ambas não sabiam, mas compartilhavam do mesmo sentimento de plenitude. A amiga quase despiu-se da urgência de tentar abraçar o mundo em uma tarde. Quase. Certamente, teria ajudado se soubesse da história do peru, que ao ver um risco de giz a sua volta, julga que está preso e fica imobilizado. Se tivesse tido conhecimento antes, saberia que há o momento de pular o risco de giz bobo e enganador. Mas há também o momento de parar e acolher-se em volta do risco. Efêmero momento, mas tão importante! Há o momento de fazer do risco, uma parede quentinha em um dia frio. Fazer parar o relógio e apreciar o momento. Ahh, se a amiga soubesse da história do peru e dos pensamentos que pipocavam (rá) na sua cabeça, certamente teria dito a ela: "eu sei que a tua vontade é saltar o risco de giz, minha amiga. Mas você está certa. Pra que pressa? Ao menos neste momento, não saltemos o risco de giz! Não saltemos o risco de giz!"



Praia da Joaquina/ Foto: Vanessa Nicola


Esse texto é uma resposta ao post de Michele Pupo, no blog Meus Devaneios

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O resgate do sorriso

Não é fácil
nem suave
e nem sempre natural.
Mas,
se queres bem viver,
o faz,
pois é essencial!
Do que falo,
afinal?
Falo do resgate
da antítese do mal.
Falo das cores mil,
dos deliciosos sabores,
do sorriso magistral.
Falo de explorar a vida,
meter a mão na terra
e a alma na ferida.
Falo de enfiar a cara na água
e extrair o gozo da lida.
Buscar, buscar!
O sentido dessa tua vida!
Resgatar o sorriso...
Ah, esse menino travesso,
que se esconde em becos,
praças e avenidas!
Olhos em busca, mantidos atentos...
e fechados ao desalento.
Busque, cutuque, cavuque!
Explore, perceba, implore!
Vá atrás, resgate o menino...
Salve-o do desatino.
Não o deixe só, perdido em outras bocas.
Fotocopie e distribua
para pessoas sãs
e loucas.
Resgate o menino desapercebido,
de alma linda e olho escuro.
Atente,
ele pode estar muito longe,
em outro país ou,
quem sabe,
do outro lado do muro.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Os meus


Eu quero os que não se cansam de mim. Quero os que aguentam a minha chatice, as minhas rabugices, as minhas ideias fixas, os meus pensamentos nem sempre politicamente corretos, as minhas atitudes nem sempre dignas... Quero nada menos do que quem me ama na minhas imperfeições. Quero somente e tão somente os que sabem que, para cada defeito e cada podre, tenho duas ou mais qualidades e delícias. Eu quero os que discordam de mim se for preciso, os que se estressam comigo, os que, por isso mesmo, me amam na raiva... Mas que não largam mão de mim. Eu quero, repito, quem não se cansa de mim. Quero aqueles que, mesmo sabendo que eu estou errada, mesmo acreditando piamente no meu erro e na minha atitude imatura, ainda assim teimem comigo. Argumentem, briguem comigo, me batam na cara, me chacoalhem! Mas que se importem comigo. Quero aqueles que veem o brilho em outros olhos, encantam-se com novas coisas... Mas que nunca, nunca, nunca me deixe ofuscar. Quero os que discutem comigo. Quero os que jogam no vento as palavras dolorosas que preciso ouvir, quero os que não têm dó, os que não têm meias palavras, os que não têm meias verdades... Quero os "todo ouvidos". Porque eu sei que, enquanto você me ouve, enquanto você me bate, enquanto você me sacode e me faz ver, há carinho, há real preocupação, há amor... Mas e quando você silencia? Ou quando diz "eu não me importo" ou "tanto faz" ou "eu não conheço você" ou "cansei"? Quando isso acontece, o que há? Há descaso. Há indiferença. Há baldes e baldes de água jogadas na fogueira. Não há nada.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Tu, teu...


Abdico de ti
Para que assim,
Possas ser teu...
Penso em ti
Para mim
e não para ser meu.
Fito a boca
Louca, fico
Anjo, amigo...
Estejas tu, contigo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Será que você consegue?


Amar... como eu mereço. Do jeitinho que eu faço. Você consegue? Retribuir na mesma quantidade e qualidade que eu? Será que você consegue aguentar as minhas ideias, as minhas opiniões e a minha neurose com meu corpo? Será que consegue entender que tenho uma tendência a procrastinar e à baixa autoestima? Será que aguenta a contradição em mim que me faz não gostar de me expor, mas gostar de ser notada? Será que consegue entender que sou romântica, mas detesto melação? Será que consegue entender que o fato de eu gostar de sexo não quer dizer que eu vá te trair? Será que consegue aguentar o fato de que nem fodendo eu vou te trair? Será que você consegue suportar o fato de que sou introvertida por fora e extrovertida por dentro? Será que aguenta ser realmente amado? Será que merece e segura o tranco de uma mulher de verdade e totalmente imperfeita? Será que aguenta o melhor de mim? Será que aguenta ser o amor da minha vida? Será que aguenta meus defeitos a ponto de merecer minhas qualidades? Por favor, se titubeou, não me ame. Se pestanejou, dê meia volta e tome seu rumo. Suma. Apesar de todos e dos inúmeros pesares, eu acho que não mereço meio-amor.




Tire suas mãos de mim

Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor

Será só imaginação?

Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

Nos perderemos entre monstros

Da nossa própria criação?
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pra que esse nosso egoísmo
Não destrua nossos corações

Será só imaginação?

Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer? 

Brigar pra quê

Se é sem querer
Quem é que vai nos proteger?
Será que vamos ter
Que responder
Pelos erros a mais
Eu e você?
(Será- Legião Urbana)


sábado, 9 de junho de 2012

Sou eu. Comigo mesma.


E é isso, me afasto. Do quê exatamente, não sei bem. Mas vou ali e volto logo. Vou me buscar. Me rebuscar. Sinto-me despedaçada, totalmente defasada e com o tempo irremediavelmente perdido. E não triste! Não, não, repense! Não estou triste e nem perto disso. Estou sóbria, feliz, sou minha. É, sou minha. Tão, tão minha! Estou sã e vou me rebuscar. Ouvir minhas músicas, ler meus livros, estudar, aperfeiçoar minha profissão. Cuidar um pouquinho mais de mim e dos meus. Cuidar sim, de mim como um todo. Quero ter-me só pra mim por um tempo. Sigo amando os meus. E eles sabem quem são. Você sabe se é 'dos meus'. Você sabe se é do seleto time dos que têm meu amor. Nunca deixarei dúvidas do meu amor por ninguém. Meu amor ora ilógico, ora previsível, ora puro, ora sem-vergonha. Mas sempre verdadeiro. Sou todinha feita de amor. Sou todinha cheia de sentimentos. Sou todinha feita de muitas de mim. Sou humana. Sou do bem. O que não quer dizer que não erre e que me não perca às vezes. O que não quer dizer que às vezes não seja uma chata e que mendigue atenção. Eu amo e sou inteira... Mas às vezes me envergonho do que faço. E que se dane! Ao menos eu dei a cara a bater e fiz! E falei e desabafei e mergulhei e tentei e saciei minhas vontades. Dito e feito. Que orgulho eu tenho de mim! Pensando bem... tempo irremediavelmente perdido? Não, acho que não. Tempo vivido, aprendido, surrado e calejado. E lindo. Então é isso, vou ali e volto logo... 



Escrevi ouvindo a emoção do Wagner Moura cantando Via Láctea. Se desafinou, nessa eu nem percebi. A música foi composta por Renato  Russo no fim de sua vida. Tão cheia de sentimento, tão cheia de verdade... parabéns, Wagner, você cumpriu o seu papel. E eu me emocionei com você.





♪ Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho...
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz... ♪


Por aqui não está "tudo" perdido. Entre perdas e ganhos, há superávit. Fiquem bem.




terça-feira, 29 de maio de 2012

O amor não morreu. Nem o Elvis.



Já era fim de noite e Laura estava observando da janela a brisa balançar carinhosamente as folhas de uma macieira. A festa tinha sido boa. Tinha sim. Ela tinha se divertido muito, dançado as músicas de sua época, bebido um pouquinho além da conta e gargalhado com as amigas. Que ideia boa a de Isaura! Reunir a turma assim, depois de tanto tempo, com os trajes e as músicas da década de sessenta! Eram 4h da manhã e ela sabia que suas pernas já não eram as mesmas. Sentia-se cansada, mas com uma sensação gostosa de nostalgia e felicidade. Seu corpo já não era o daquela garotinha. Seu rosto também não. Mas, ahh, ela era tão mais plena agora! Sim, plenitude era a palavra. Possuía mais maturidade e calma diante da vida e diante das situações. Era uma mulher agora e tinha, sim, sabedoria. Agora era chamada de dona Laura pelos namorados das filhas e tinha dores nos joelhos. Mas que ínfimo preço a pagar diante do conhecimento adquirido, diante da família formada, diante do amor que possuía pela marido e pelos filhos! Os pensamentos embaralhavam-se em sua mente enquanto ela, cansada e sonolenta, bebia sua água em pequenos goles, dando uma trégua definitiva ao fígado já saturado pelo álcool nada habitual. Do outro lado do salão, estava Ricardo. Ela olhou e sorriu. Ele retribuiu, voltando logo as atenções para a conversa animada com o amigo. Como se não bastasse as emoções das lembranças que aquela noite incrível lhe tinha proporcionado, toca aquela música. E, de incrível, a noite passou a ser mágica. Em um instante de magia, ao som de Elvis, ela voltou àquele dia...






♪Love me tender,
Love me sweet,
Never let me go.
You have made my life complete,
And I love you so.♪

... E àquele baile. Ao momento em que dançou a primeira vez com ele. Estava frio. Eles tinham dezessete anos. Os corações acelerados, o sangue percorrendo as veias em frenesi, os sentimentos imaturos aflorando, os hormônios enlouquecendo, a timidez inocente corando as maçãs dos rostos. Tudo tão mágico, tão sutil, tão doce, tão gostoso! Laura fechou os olhos e reviveu. Como se estivesse acontecendo naquele minuto. Ainda conseguia sentir o calor das mãos daquele menino. Ainda sentia o seu cheiro de colônia. Ainda lembra que, após confidenciar seu primeiro beijo em meio a risinhos histéricos com as amigas, despediu-se das meninas e passou a noite em claro, suspirando. Ao lembrar, ainda sentia-se no céu. Do mesmo modo que aquela menina sentiu. Como aquela menina que, apesar de seu corpo dizer o contrário, ainda estava nela. Ainda era ela. O êxtase deve ter durado pouco tempo, porque a música ainda tocava e enchia o salão de paz quando ela olhou naqueles olhos. E ali ela percebeu que ele também estava sentindo tudo. Relembrando tudo. Os olhos de Ricardo brilhavam como um menino de dezessete. O amigo percebeu e saiu estrategicamente. Quando ele se aproximou devagar e a tirou pra dançar, estendo a mão e dizendo apenas: 'nossa música', ela teve a certeza de que estava de novo no céu. De novo em 1968, com seu vestido amarelo claro. Ele teve a certeza ali de que era amada. E de que o amava cada vez mais. Mas havia algo que ela não sabia. Sequer imaginava. Não era apenas uma música. Naquele inverno de 1968, Ricardo dançava com a menina que viria a ser a mãe dos seus filhos. Ele estava certo disso. Aquela música não era apenas melodia. Elvis embalava ali o lema de sua vida. 

♪"Love me tender, (Me ame com ternura)
love me long, (Me ame por muito tempo)
take me to your heart, (Me leve ao seu coração)
for it's there thar I belong, (Pois é a ele que pertenço)
and we'll never part" (E nunca nos separaremos) ♪

"Meu amor, eu te farei feliz." Ele disse em pensamento, no auge de sua adolescência, naquela dança e diante da sua futura esposa. Hoje, um homem adulto. Um senhor. Ela, uma senhora. E os dois, a prova de que o tempo não causa só perda e sofrimento. O tempo acumula, acrescenta, traz vida. É só conduzir e deixar ser conduzido. Dança comigo?



sábado, 26 de maio de 2012

Dizem por aí...


Gatinha Manhosa
Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...
Briga, só pra depois
Ganhar mil carinhos de mim
Se eu aumento a voz
Você faz beicinho
E chora baixinho
E diz que a emoção
Dói seu coração...
Já, não acredito
Se você chora
Dizendo me amar
Eu sei que na verdade
Carinhos você quer ganhar...
Um dia gatinha manhosa
Eu prendo você
No meu coração
Quero ver você
Fazer manha então
Presa no meu coração
Quero ver você...

Interpretação: Adriana Calcanhoto
Compositor: Erasmo Carlos




(calúnia, calúnia pura! :P)





sexta-feira, 4 de maio de 2012

Hoje o amargo é mais gostoso


É, hoje eu quero assim. Amargo. Ácido, cítrico, picante. Sabores daqueles que te travam a língua e fazem doer a mandíbula. Torce aí o nariz, porque é o que tem pra hoje. Sou toda feita de açúcar, docinha, suave, rosa-bebê, florezinhas, coraçõezinhos vermelhos, saia rodada e clichezinhos. Sou e assumo. Então, de vez em quando, quero audácia. Amargura preta, caveiras e selvageria. Deixo só a base que me sustenta e me jogo de cabeça e olhos abertos no abismo do sinistro. Guardo o singelo na gaveta, coloco o açúcar fora do alcance das formigas e me lanço. Ousada, picante, insana. Amarga. Coraçãozinho e idealismo às vezes enchem o saco que eu não tenho. E esse outro lado me torna equilibrada e insanamente sã. Não combato vez e outra a amargura. Junto-me a ela e enlouqueço pra ser feliz. Pra ser eu. Pra me ter sempre comigo. Pra ser forte e poder sobreviver nesse meu mundo céu-azul-amor-perfeito-cavalo-branco. É, hoje eu quero assim. Amanhã, não sei. O amanhã não me interessa. Não hoje. Amanhã, repito, não sei. E hoje, não quero textinho justificado nem imagem bonitinha. Que vá pro caralho o perfeitinho da Mirella. Isso é hoje. Amanhã, não sei...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Das coisas que não te falei


Não te falei das flores que encantei
Só pra celebrar teu caminhar
Não te falei do sol que eu chamei
Apenas pra te alegrar
Não te falei do beijo que cedi 
E do quanto eu sorri
Não te falei o quanto eu vibrei
O quanto energizei 
E o quanto eu pensei
Não te falei de mim 
Quanto estou em ti
Não te falei dos sonhos enfadonhos
Não te falei do meu bem
Tampouco do meu mal
Não te falei do teu casual 
Do meu banal, 
Do nosso trivial
Eu te falei de tudo.
E nunca disse nada.

sábado, 14 de abril de 2012

Brindo


Estou apaixonada por ela. E ela por mim. Que delícia de música! Apaixonei-me por ele, também. Por sua excentricidade, por sua delicadeza de timbre, por tudo. Estou encantada pelo cantor. Devendra Banhart, você já ouviu falar dele? Se já, sorte sua. Se não, espia só que delícia de romantismo, sensualidade, delicadeza. É um vídeo todinho feito de amor... e de suspiros... Tão eu! 



Brindo- Devendra Banhart. Indicação mais do que feliz da Alline Silva!

Brindo a este amor, un amor tán raro

Brindo a este amor, un amor tán claro

Brindo a este amor, un amor derepente

Brindo a este amor, un amor tán diferente

Como la orsita en el mar

Un elemento nuevo pa jugar

Brindo a este amor que me llena de esperanza

Y brindo a esa luz allá en la distancia

Venga Colibrí despierta a la diosa oh

Que canta-te a mi su canción preciosa

Brindo a todo lo que quiero dar

A todo que está punto a empezar

Brindo a este amor que nunca se demora

Sólo el hospital está abierto a esta hora

No pienso en ti

sólo te siento

pasando por mi

como un dulce viento


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Agora eu quero assim...

Um dia eu fui diferente. Um dia, quis tentar agradar o outro. Não, não há nada de errado em agradar o outro, principalmente se o outro for importante pra você. Mas um dia, eu quis agradar o outro me anulando. Desagradando a mim mesma. Ocultando quem sou. Não! Basta! Chega de 'média'. Chega de tentar fazer bonito. Chega de 'o que os outros irão pensar'? Ainda titubeio ao falar algo que penso. Ainda penso duas ou três vezes no que vão pensar de mim. Penso e logo decido: que se dane! Esta aqui sou eu. Jamais vou me esconder, jamais vou deixar de falar o que penso e fazer o que tenho vontade! Eu lamento se você não gostou. Eu lamento se você se chateou ao ouvir a minha verdade nada absoluta. Muitas pessoas defendem com veemência a sinceridade... Pois eu acho que a sinceridade consigo mesmo, aquela, que ninguém vê nem escuta, é que é a mais importante. O que os outros pensam não passa disso. É só "o que os outros pensam". Goste de mim. Mas desta aqui, a verdadeira. 

A filha da vida



"Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar!
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
O anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou,
Por isso dona Rosa
Entre dentro desta roda,
Diga um verso bem bonito,
Diga adeus e vá se embora..."



O sol batia nos cachos loiros e queimava sua pele dourada, tingindo-a de um tom rosado. Há dez anos ela assoviava a cantiga. Eram sons automáticos que saíam de sua boca jovem. Involuntários como sotaque.  Melodiava e rimava, processando tudo e encaixando confortavelmente as letrinhas na cabeça. O vestido gasto era estampado com flores pequenas de um tom que um dia fora vermelho. A vida era aquela. O passado ainda não se fizera. Mal tinha completado ela uma década de história. Uma década de uma canção inconscientemente proferida. Assoviava enquanto terminava de colher as rosas. Belas, belas rosas que em nada pareciam com as de seu vestido. E em nada combinavam com os seus cabelos ressecados, pensava ela, ao colocar uma das flores na lateral da orelha e observar seu reflexo no rio. Não se achava feia nem bonita. Nem sabia ela o que era isso. Filha de moça magra e precocemente enrugada, sentia-se mais filha da vida do que de sua progenitora. Um dia o moleque olhou pra ela. Flor nas orelhas. Bonita, ele disse. Bonita? O que é bonita? Não sei, não. Sei que eu gosto. Sei que é bom. Filha da vida. A pequena do mundo. Virgem das maldades. Sentiu ela que o coração pulou. Sentiu ela que a face ficou rosinha, e desta vez não era do sol de sua terra. Mais tarde, muito tempo mais tarde, descobriu uma meia dúzia de coisas. Vidro que se quebra, amor pouco que se acaba, adeus pra ir embora. Nunca pegou naquele livro do homem, com o tal dos significados das palavras. Mas, filha da vida que sempre foi, aprendeu com a mãe o que importava. Foi uma meia dúzia de coisas, mas pra ela, filha da vida, filha da canção, foi toda a sua existência. E valeu.






segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nua e crua


Contos são muito legais, muito divertidos e inspiradores. Adoro ler e escrever contos. Mas agora eu tenho a frieza de uma historinha real pra contar pra vocês. Nua e crua. Perto de mim. De ti também, talvez. 
Ela nasceu há quase 70 anos atrás. Filha de família humilde de Lages (uma das cidades mais frias de Santa Catarina). Família comum, tradicional, pobre, mas não miserável. Desconheço mais detalhes. Ela é a Dona I. A Dona I, aos 17 anos, conheceu o seu V. Seu V, dez anos mais velho, vinha de família igualmente humilde, era galanteador, educado e de voz bem grave. Era adepto (e ainda é) da linguagem culta e formal. Mesmo sem ter tido muito estudo, conversa em linguagem rebuscada e trata da mesma maneira o presidente dos Estados Unidos e um mendigo na rua. Dona I, moça simples e tímida, casou-se com Seu V. Tempos depois, descobriu que não podia ter filhos. Adotaram uma criança, filha de uma conhecida muito pobre. Um menino. Aos dois anos de idade, o menino teve uma febre muito intensa e sérios problemas de saúde. Com a medicina muito precária na época e o pouco acesso do casal à assistência adequada, o menino teve sequelas sérias. Retardamento mental.  Hoje, ele é um homem de quase cinquenta anos. Se tivesse tido tratamento, talvez mesmo com sequelas, pudesse ter tido uma vida satisfatória e até constituído família. Mas hoje vive como uma criança de 8 anos, apesar de ter uma memória inexplicavelmente fantástica. É surdo e mudo. Comunica-se através de sinais, gestos labiais e escrita. Diga o seu nome e sua data de nascimento a ele (ele adora perguntar isso) e suma por um ano. Quando ele te vir, vai lembrar na hora daquelas informações. Ele nunca esquece. Hoje, os três vivem em uma residência simples de uma bairro de classe média. Dona I e seu V não têm parentes vivos. Tudo bem, Seu V tem apenas um irmão, já muito mais idoso que ele (como diz o meu pai: 'com um pé na cova e outro na casca de banana'), que mora longe.  O casal de idosos cuida com muita dificuldade do "menino" de quase 50 anos. Dona I tem sérios problemas de saúde, em decorrência da idade. Seu V, apesar de ser 10 anos mais velho do que sua esposa, não tem problemas relevantes de saúde física, mas tornou-se um velho ranzinza e "dono-da-verdade". Sem ninguém por eles. Ignorantes, no sentido real da palavra. 

E isso é só o começo dessa história. Continua...

sábado, 7 de abril de 2012

Muito mais do que o eu que você vê


Sigo. Enquanto aqueles sonhos não acontecem, o sol ainda se põe. E por isso, sigo. É aqui e agora que a mágica se faz. Então eu sigo. Sigo perdida, mas sempre me encontro. Sigo enlouquecendo de amor e me entorpecendo com dor. E rimando, sem medo de ser clichê, amor com dor. Enxugo uma lágrima aqui, enalteço um sorriso ali... e vou. De olhos fechados num trecho do caminho, de olhos bem abertos em outro. Sigo fazendo caretas e contraindo sem reservas todos os músculos do rosto. Porque, apesar dos pesares, e graças a eles, tenho vida por dentro. Ora procrastino, ora desatino. Desafino, canto hinos. E sigo. Contraditória e coerente. Mestra. Maestra de mim. Sigo assim. De joelhos machucados, de coração cheio de cicatrizes e sempre taquicárdico. Lindo, eufórico, vivo. Eu sigo, porque enquanto o amanhã não chega (e ele nunca chega), a vida prevalece. Pre. va. le. ce. Porque, por mais que eu almeje o amanhã, é o instante que me apetece. Eu sigo porque quero mais. Eu quero mais do hoje. Eu quero mais de mim. Eu quero mais dor, se for ter mais sabor. Não me farei de rogada... que venham mais cicatrizes no pacote da vida completa. E vamos mergulhar no sentimento. Mergulhar, sim. Nada de molhar só os pés. É, eu sigo. Ora racional, ora emocional. Ora deliciosamente e lentamente tomada por ambos. Sigo eu. Tentando mostrar quem sou, escondendo. Escondo hoje, mostro amanhã. Ou, se eu quiser, te mostro tudo hoje. Difícil, porque sou tantas. Muitas. Muito. Muito mais do que o eu que você vê.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Aniversário doloroso

Hoje é o dia de aniversários. 
Aniversários de despedidas. 
Despedidas eternas de pessoas queridas. 
Queridas em vida, queridas na morte.
Morte lenta. Morte súbita.
Súbitas mudanças, triste fim de duas vidas.
Meu avô. Meu amor.
Um ano sem um. Cinco, sem outro.
O pai da minha mãe. O pai dos meus filhos.
Bem me lembro destes dois homens.
As piadas do meu avô. As risadas do meu amor.
A vida segue seu trajeto.
Mas a morte não deixa pra trás quem amamos...
Eles seguem conosco, na lembrança.
Quem tem memória nunca perde o que tem valor.



Essa é pra eles. Essa é por eles. Escuto, o coração bate mais forte... e sorrio.




(Tradução)

Sim, eu entendo que toda vida deve acabar
Enquanto nos sentamos sozinhos, 
sei que algum dia nós também devemos ir
Oh, (eu) sou um homem de sorte, por contar em ambas mãos as pessoas que amo...
Algumas pessoas só tem uma, outras, não tem nenhuma

Fiquei aqui comigo...
Vamos apenas respirar...

Pratiquei todos meus pecados, nunca me deixarão ganhar
Por baixo disso tudo, apenas outro ser humano
Eu não quero magoar, há tanto nesse mundo para me fazer sangrar

Fiquei aqui comigo...
Você é tudo o que vejo...

Será que eu disse que preciso de você?
Será que eu disse que quero você?
Oh, se eu não disse, sou um tolo, veja você
Ninguém sabe disso melhor que eu

Enquanto eu saio ileso...
Me pergunto todo dia, enquanto eu observo seu rosto
Tudo o que você deu
E nada que você guardaria, oh, não

Nada que você levaria
Tudo o que você deu...

Será que eu disse que eu preciso de você?
Será que eu disse que eu quero você?
Oh, se eu não disse, sou um tolo, veja você
Ninguém sabe disso melhor que eu
E eu saio ileso, ah...

Nada que você levaria
Tudo o que você deu
Abrace-me até eu morrer
Encontro-lhe do outro lado.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Ainda tenho 16...


Eu entrei no ônibus e me sentei lá atrás. Comecei a lixar a unha, na tentativa de otimizar o tempo enquanto fazia o trajeto pra casa. Enquanto pensava no que tinha a fazer quando chegasse, as três meninas entraram. As gurias, como dizemos por aqui. Era meio-dia, então certamente haviam saído da escola. Camiseta branca com o logotipo do colégio e jeans. Umas de short larguinho, outra de calça skinny com rasteirinha da moda. Brinco de lacinho. Fone em um dos ouvidos. Cabelo ao natural. A pele com espinhas discretas e tônus intacto. Conversavam e gargalhavam ao relembrar as situações que haviam vivido ainda há pouco, talvez no intervalo das aulas. Não pude deixar de notar. Tinham uma gargalhada gostosa, despreocupada, confiante. Típica das garotas sonhadoras. Conversavam em tom alto, mas não escandaloso. E de repente, eu percebi. Assim que o ônibus fez uma curva mais forte e uma das meninas se desequilibrou, todas gargalharam ainda mais. E eu ri junto. Discretamente, não consegui conter a risada. E foi aí... foi aí que eu percebi que ainda tinha 16. As roupas, o corpo e a pele de menina, as gírias das amigas, as gargalhadas espontâneas, os sonhos infinitos, os tabus de quem ainda não viveu, as dúvidas, os hormônios aflorando, as paixões platônicas, os gostos musicais... De nada disso, eu pude me despedir realmente. Em um momento, eu tinha 16. Quando pisquei, tinha 26. Senti saudades. Senti porque sei que a menina de 16 nunca morreu. Eu me vi ali, com aquelas meninas. Eu achei graça do que elas também achavam. Eu ri com elas. Hoje, eu tenho mais bagagem e menos dúvidas (ou dúvidas diferentes). Mas tudo aconteceu tão de repente, que eu nem vi. Eu não me despedi. E aí percebi que muitas coisas na minha vida aconteceram assim. Fases da vida não foram terminadas, pessoas se foram sem que eu pudesse dar adeus, situações terminaram sem nunca ter começado. Sem despedida, tudo parece doer mais. E aí, eu decidi que o passado está pronto, é meu e imutável. Mas o futuro eu posso mudar. E eu acho que cansei dessa história de não me despedir direito das coisas. Agora, eu quero viver tudo o que eu tenho pra viver. Nenhuma página será virada sem antes ter sido lida, relida e bem compreendida. Pretendo mergulhar e explorar tudo. Viver intensamente. E fazê-lo até a última gota, até o último suspiro, até o último milésimo, até esgotar e secar toda a fonte. Viver, até que dentro de mim não caiba mais nada... E quando esse dia chegar, que eu me despeça pra valer. Da vida e de mim mesma. Mas isso demora. Vejo um oceano de vida e de possibilidades pela frente. E ele não vai secar tão fácil, pois sempre chove vida quando nasce o sol.