sexta-feira, 9 de março de 2012

Ainda tenho 16...


Eu entrei no ônibus e me sentei lá atrás. Comecei a lixar a unha, na tentativa de otimizar o tempo enquanto fazia o trajeto pra casa. Enquanto pensava no que tinha a fazer quando chegasse, as três meninas entraram. As gurias, como dizemos por aqui. Era meio-dia, então certamente haviam saído da escola. Camiseta branca com o logotipo do colégio e jeans. Umas de short larguinho, outra de calça skinny com rasteirinha da moda. Brinco de lacinho. Fone em um dos ouvidos. Cabelo ao natural. A pele com espinhas discretas e tônus intacto. Conversavam e gargalhavam ao relembrar as situações que haviam vivido ainda há pouco, talvez no intervalo das aulas. Não pude deixar de notar. Tinham uma gargalhada gostosa, despreocupada, confiante. Típica das garotas sonhadoras. Conversavam em tom alto, mas não escandaloso. E de repente, eu percebi. Assim que o ônibus fez uma curva mais forte e uma das meninas se desequilibrou, todas gargalharam ainda mais. E eu ri junto. Discretamente, não consegui conter a risada. E foi aí... foi aí que eu percebi que ainda tinha 16. As roupas, o corpo e a pele de menina, as gírias das amigas, as gargalhadas espontâneas, os sonhos infinitos, os tabus de quem ainda não viveu, as dúvidas, os hormônios aflorando, as paixões platônicas, os gostos musicais... De nada disso, eu pude me despedir realmente. Em um momento, eu tinha 16. Quando pisquei, tinha 26. Senti saudades. Senti porque sei que a menina de 16 nunca morreu. Eu me vi ali, com aquelas meninas. Eu achei graça do que elas também achavam. Eu ri com elas. Hoje, eu tenho mais bagagem e menos dúvidas (ou dúvidas diferentes). Mas tudo aconteceu tão de repente, que eu nem vi. Eu não me despedi. E aí percebi que muitas coisas na minha vida aconteceram assim. Fases da vida não foram terminadas, pessoas se foram sem que eu pudesse dar adeus, situações terminaram sem nunca ter começado. Sem despedida, tudo parece doer mais. E aí, eu decidi que o passado está pronto, é meu e imutável. Mas o futuro eu posso mudar. E eu acho que cansei dessa história de não me despedir direito das coisas. Agora, eu quero viver tudo o que eu tenho pra viver. Nenhuma página será virada sem antes ter sido lida, relida e bem compreendida. Pretendo mergulhar e explorar tudo. Viver intensamente. E fazê-lo até a última gota, até o último suspiro, até o último milésimo, até esgotar e secar toda a fonte. Viver, até que dentro de mim não caiba mais nada... E quando esse dia chegar, que eu me despeça pra valer. Da vida e de mim mesma. Mas isso demora. Vejo um oceano de vida e de possibilidades pela frente. E ele não vai secar tão fácil, pois sempre chove vida quando nasce o sol.


5 comentários:

Maela disse...

Viva! Voe! Nade!

Letras Saltitando disse...

nossa... que post lindo!!!! as vezes tambem me sinto assim, mas com a sutil diferença de que tenho 29.... bjs e bom findi!

Michele disse...

Achei o texto maravilhoso!
Lindo de morrer e renascer! :)

Mirella de Oliveira disse...

Que delícia o comentários de todas vocês! :D
Obrigada!

Michele Pupo disse...

Eu gosto muito deste texto e da reflexão contida nele. Percebo amadurecimento, flexibilidade, vontade de viver.

Que seus dias sejam sempre melhores que os anteriores e que você não perca a capacidade de sonhar. Nunca.

Beijos