sexta-feira, 13 de abril de 2012

A filha da vida



"Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar!
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
O anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou,
Por isso dona Rosa
Entre dentro desta roda,
Diga um verso bem bonito,
Diga adeus e vá se embora..."



O sol batia nos cachos loiros e queimava sua pele dourada, tingindo-a de um tom rosado. Há dez anos ela assoviava a cantiga. Eram sons automáticos que saíam de sua boca jovem. Involuntários como sotaque.  Melodiava e rimava, processando tudo e encaixando confortavelmente as letrinhas na cabeça. O vestido gasto era estampado com flores pequenas de um tom que um dia fora vermelho. A vida era aquela. O passado ainda não se fizera. Mal tinha completado ela uma década de história. Uma década de uma canção inconscientemente proferida. Assoviava enquanto terminava de colher as rosas. Belas, belas rosas que em nada pareciam com as de seu vestido. E em nada combinavam com os seus cabelos ressecados, pensava ela, ao colocar uma das flores na lateral da orelha e observar seu reflexo no rio. Não se achava feia nem bonita. Nem sabia ela o que era isso. Filha de moça magra e precocemente enrugada, sentia-se mais filha da vida do que de sua progenitora. Um dia o moleque olhou pra ela. Flor nas orelhas. Bonita, ele disse. Bonita? O que é bonita? Não sei, não. Sei que eu gosto. Sei que é bom. Filha da vida. A pequena do mundo. Virgem das maldades. Sentiu ela que o coração pulou. Sentiu ela que a face ficou rosinha, e desta vez não era do sol de sua terra. Mais tarde, muito tempo mais tarde, descobriu uma meia dúzia de coisas. Vidro que se quebra, amor pouco que se acaba, adeus pra ir embora. Nunca pegou naquele livro do homem, com o tal dos significados das palavras. Mas, filha da vida que sempre foi, aprendeu com a mãe o que importava. Foi uma meia dúzia de coisas, mas pra ela, filha da vida, filha da canção, foi toda a sua existência. E valeu.






Um comentário:

Eraldo Paulino disse...

Nossa, que texto lindo.

Sabe quando a gente termina algo e pena: "eu queria ter escrito isso"?

Pois é.

Bjs coloridos e ensolarados como o texto!