segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nua e crua


Contos são muito legais, muito divertidos e inspiradores. Adoro ler e escrever contos. Mas agora eu tenho a frieza de uma historinha real pra contar pra vocês. Nua e crua. Perto de mim. De ti também, talvez. 
Ela nasceu há quase 70 anos atrás. Filha de família humilde de Lages (uma das cidades mais frias de Santa Catarina). Família comum, tradicional, pobre, mas não miserável. Desconheço mais detalhes. Ela é a Dona I. A Dona I, aos 17 anos, conheceu o seu V. Seu V, dez anos mais velho, vinha de família igualmente humilde, era galanteador, educado e de voz bem grave. Era adepto (e ainda é) da linguagem culta e formal. Mesmo sem ter tido muito estudo, conversa em linguagem rebuscada e trata da mesma maneira o presidente dos Estados Unidos e um mendigo na rua. Dona I, moça simples e tímida, casou-se com Seu V. Tempos depois, descobriu que não podia ter filhos. Adotaram uma criança, filha de uma conhecida muito pobre. Um menino. Aos dois anos de idade, o menino teve uma febre muito intensa e sérios problemas de saúde. Com a medicina muito precária na época e o pouco acesso do casal à assistência adequada, o menino teve sequelas sérias. Retardamento mental.  Hoje, ele é um homem de quase cinquenta anos. Se tivesse tido tratamento, talvez mesmo com sequelas, pudesse ter tido uma vida satisfatória e até constituído família. Mas hoje vive como uma criança de 8 anos, apesar de ter uma memória inexplicavelmente fantástica. É surdo e mudo. Comunica-se através de sinais, gestos labiais e escrita. Diga o seu nome e sua data de nascimento a ele (ele adora perguntar isso) e suma por um ano. Quando ele te vir, vai lembrar na hora daquelas informações. Ele nunca esquece. Hoje, os três vivem em uma residência simples de uma bairro de classe média. Dona I e seu V não têm parentes vivos. Tudo bem, Seu V tem apenas um irmão, já muito mais idoso que ele (como diz o meu pai: 'com um pé na cova e outro na casca de banana'), que mora longe.  O casal de idosos cuida com muita dificuldade do "menino" de quase 50 anos. Dona I tem sérios problemas de saúde, em decorrência da idade. Seu V, apesar de ser 10 anos mais velho do que sua esposa, não tem problemas relevantes de saúde física, mas tornou-se um velho ranzinza e "dono-da-verdade". Sem ninguém por eles. Ignorantes, no sentido real da palavra. 

E isso é só o começo dessa história. Continua...

Um comentário:

Michele disse...

Você está craque em construir contos, dona Mirella. Por que não investe na área? Este ficou excelente.

PS: Adorei o ditado 'com um pé na cova e outro na casca de banana'

kkkkkkk

Beijos