terça-feira, 29 de maio de 2012

O amor não morreu. Nem o Elvis.



Já era fim de noite e Laura estava observando da janela a brisa balançar carinhosamente as folhas de uma macieira. A festa tinha sido boa. Tinha sim. Ela tinha se divertido muito, dançado as músicas de sua época, bebido um pouquinho além da conta e gargalhado com as amigas. Que ideia boa a de Isaura! Reunir a turma assim, depois de tanto tempo, com os trajes e as músicas da década de sessenta! Eram 4h da manhã e ela sabia que suas pernas já não eram as mesmas. Sentia-se cansada, mas com uma sensação gostosa de nostalgia e felicidade. Seu corpo já não era o daquela garotinha. Seu rosto também não. Mas, ahh, ela era tão mais plena agora! Sim, plenitude era a palavra. Possuía mais maturidade e calma diante da vida e diante das situações. Era uma mulher agora e tinha, sim, sabedoria. Agora era chamada de dona Laura pelos namorados das filhas e tinha dores nos joelhos. Mas que ínfimo preço a pagar diante do conhecimento adquirido, diante da família formada, diante do amor que possuía pela marido e pelos filhos! Os pensamentos embaralhavam-se em sua mente enquanto ela, cansada e sonolenta, bebia sua água em pequenos goles, dando uma trégua definitiva ao fígado já saturado pelo álcool nada habitual. Do outro lado do salão, estava Ricardo. Ela olhou e sorriu. Ele retribuiu, voltando logo as atenções para a conversa animada com o amigo. Como se não bastasse as emoções das lembranças que aquela noite incrível lhe tinha proporcionado, toca aquela música. E, de incrível, a noite passou a ser mágica. Em um instante de magia, ao som de Elvis, ela voltou àquele dia...






♪Love me tender,
Love me sweet,
Never let me go.
You have made my life complete,
And I love you so.♪

... E àquele baile. Ao momento em que dançou a primeira vez com ele. Estava frio. Eles tinham dezessete anos. Os corações acelerados, o sangue percorrendo as veias em frenesi, os sentimentos imaturos aflorando, os hormônios enlouquecendo, a timidez inocente corando as maçãs dos rostos. Tudo tão mágico, tão sutil, tão doce, tão gostoso! Laura fechou os olhos e reviveu. Como se estivesse acontecendo naquele minuto. Ainda conseguia sentir o calor das mãos daquele menino. Ainda sentia o seu cheiro de colônia. Ainda lembra que, após confidenciar seu primeiro beijo em meio a risinhos histéricos com as amigas, despediu-se das meninas e passou a noite em claro, suspirando. Ao lembrar, ainda sentia-se no céu. Do mesmo modo que aquela menina sentiu. Como aquela menina que, apesar de seu corpo dizer o contrário, ainda estava nela. Ainda era ela. O êxtase deve ter durado pouco tempo, porque a música ainda tocava e enchia o salão de paz quando ela olhou naqueles olhos. E ali ela percebeu que ele também estava sentindo tudo. Relembrando tudo. Os olhos de Ricardo brilhavam como um menino de dezessete. O amigo percebeu e saiu estrategicamente. Quando ele se aproximou devagar e a tirou pra dançar, estendo a mão e dizendo apenas: 'nossa música', ela teve a certeza de que estava de novo no céu. De novo em 1968, com seu vestido amarelo claro. Ele teve a certeza ali de que era amada. E de que o amava cada vez mais. Mas havia algo que ela não sabia. Sequer imaginava. Não era apenas uma música. Naquele inverno de 1968, Ricardo dançava com a menina que viria a ser a mãe dos seus filhos. Ele estava certo disso. Aquela música não era apenas melodia. Elvis embalava ali o lema de sua vida. 

♪"Love me tender, (Me ame com ternura)
love me long, (Me ame por muito tempo)
take me to your heart, (Me leve ao seu coração)
for it's there thar I belong, (Pois é a ele que pertenço)
and we'll never part" (E nunca nos separaremos) ♪

"Meu amor, eu te farei feliz." Ele disse em pensamento, no auge de sua adolescência, naquela dança e diante da sua futura esposa. Hoje, um homem adulto. Um senhor. Ela, uma senhora. E os dois, a prova de que o tempo não causa só perda e sofrimento. O tempo acumula, acrescenta, traz vida. É só conduzir e deixar ser conduzido. Dança comigo?



sábado, 26 de maio de 2012

Dizem por aí...


Gatinha Manhosa
Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...
Briga, só pra depois
Ganhar mil carinhos de mim
Se eu aumento a voz
Você faz beicinho
E chora baixinho
E diz que a emoção
Dói seu coração...
Já, não acredito
Se você chora
Dizendo me amar
Eu sei que na verdade
Carinhos você quer ganhar...
Um dia gatinha manhosa
Eu prendo você
No meu coração
Quero ver você
Fazer manha então
Presa no meu coração
Quero ver você...

Interpretação: Adriana Calcanhoto
Compositor: Erasmo Carlos




(calúnia, calúnia pura! :P)





sexta-feira, 4 de maio de 2012

Hoje o amargo é mais gostoso


É, hoje eu quero assim. Amargo. Ácido, cítrico, picante. Sabores daqueles que te travam a língua e fazem doer a mandíbula. Torce aí o nariz, porque é o que tem pra hoje. Sou toda feita de açúcar, docinha, suave, rosa-bebê, florezinhas, coraçõezinhos vermelhos, saia rodada e clichezinhos. Sou e assumo. Então, de vez em quando, quero audácia. Amargura preta, caveiras e selvageria. Deixo só a base que me sustenta e me jogo de cabeça e olhos abertos no abismo do sinistro. Guardo o singelo na gaveta, coloco o açúcar fora do alcance das formigas e me lanço. Ousada, picante, insana. Amarga. Coraçãozinho e idealismo às vezes enchem o saco que eu não tenho. E esse outro lado me torna equilibrada e insanamente sã. Não combato vez e outra a amargura. Junto-me a ela e enlouqueço pra ser feliz. Pra ser eu. Pra me ter sempre comigo. Pra ser forte e poder sobreviver nesse meu mundo céu-azul-amor-perfeito-cavalo-branco. É, hoje eu quero assim. Amanhã, não sei. O amanhã não me interessa. Não hoje. Amanhã, repito, não sei. E hoje, não quero textinho justificado nem imagem bonitinha. Que vá pro caralho o perfeitinho da Mirella. Isso é hoje. Amanhã, não sei...