domingo, 22 de julho de 2012

Meu brinquedo


Zapeio por dentro de mim... gosto assim. Mudo as estações, brinco de Deus comigo mesma. Transmuto, transformo, enceno, aceno, sorrio, choro... sou meu playcenter. E vou, não sei se a sério ou na levada da brincadeira, do fundo ao ápice. Navego nos meus vales, voo por entre minhas montanhas e me escondo em minhas vielas. Arteira. Arteira de mim. Danço e canso. Tudo em um dia, talvez. Eu te dou a mão, se queres também brincar. Te deixo ser feliz em mim, mas conserve o meu brinquedo. É meu e só meu. Respeite e limpe tudo quando sair, porque meu brinquedo eu levo a sério. Faz por mereces e volta a ser criança comigo. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Não saltemos o risco de giz!

Para M. P.  e V.N.


Ela não sabia, mas inúmeros pensamentos borbulhavam na cabeça da amiga. Pensamentos felizes e saltitantes. "A felicidade definitivamente era isso", resumiam-se todos eles. O dia parecia ter sido cuidadosamente encomendando: temperatura, luminosidade, velocidade do vento... E quem diria mesmo que não foi? Ela também não sabia, mas a amiga prestara atenção aos meninos jogando bola na areia da praia e na singeleza do momento. A amiga estava "em casa" como nunca esteve. E, ao mesmo tempo, sentia-se turista e totalmente disposta a aventurar-se como estrangeira dentro do próprio habitat, sugando para si o tempo restante e exalando para as amigas tudo de bom que havia no lugar que tanto amava. Não acreditava piamente em destino, mas que tudo parecia ter sido minunciosamente planejado por mãos divinas, ahhh... parecia. De repente, de súbito, a amiga sentiu urgência em levá-la junto da outra amiga pelas mãos e correr a ilha, desbravando tudo e desbravando-se, num jogo louco, fugaz e lindo de aventura, emoção e euforia. "Vamos!", disse a amiga para ela e a outra. Ela não quis ir. Parecia ter sido tomada por uma serenidade e uma paz madura e bonita de se ver. E ali, a amiga entendeu. Pra que pressa, se podemos simplesmente parar o tempo, quando bem entendermos? A amiga teve quase certeza de que, se olhasse o relógio, encontraria o ponteiro parado, congelado e esperando o momento certo de reiniciar a contagem do tic-tac que esgota vidas. Estaria ele ali, esperando o momento certo. O momento delas. A amiga teve medo, não olhou o relógio. Preferiu devanear e abstrair. Sentou no banquinho e admirou o mar junto das duas outras. "Que lindo e sempre tão pertinho!" Já havia o vislumbrado tantas vezes, mas que graça tem a felicidade, se ela não é compartilhada? A amiga não sabia dos pensamentos dela naquele instante. E ela não sabia dos pensamentos da amiga. Ambas não sabiam, mas compartilhavam do mesmo sentimento de plenitude. A amiga quase despiu-se da urgência de tentar abraçar o mundo em uma tarde. Quase. Certamente, teria ajudado se soubesse da história do peru, que ao ver um risco de giz a sua volta, julga que está preso e fica imobilizado. Se tivesse tido conhecimento antes, saberia que há o momento de pular o risco de giz bobo e enganador. Mas há também o momento de parar e acolher-se em volta do risco. Efêmero momento, mas tão importante! Há o momento de fazer do risco, uma parede quentinha em um dia frio. Fazer parar o relógio e apreciar o momento. Ahh, se a amiga soubesse da história do peru e dos pensamentos que pipocavam (rá) na sua cabeça, certamente teria dito a ela: "eu sei que a tua vontade é saltar o risco de giz, minha amiga. Mas você está certa. Pra que pressa? Ao menos neste momento, não saltemos o risco de giz! Não saltemos o risco de giz!"



Praia da Joaquina/ Foto: Vanessa Nicola


Esse texto é uma resposta ao post de Michele Pupo, no blog Meus Devaneios

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O resgate do sorriso

Não é fácil
nem suave
e nem sempre natural.
Mas,
se queres bem viver,
o faz,
pois é essencial!
Do que falo,
afinal?
Falo do resgate
da antítese do mal.
Falo das cores mil,
dos deliciosos sabores,
do sorriso magistral.
Falo de explorar a vida,
meter a mão na terra
e a alma na ferida.
Falo de enfiar a cara na água
e extrair o gozo da lida.
Buscar, buscar!
O sentido dessa tua vida!
Resgatar o sorriso...
Ah, esse menino travesso,
que se esconde em becos,
praças e avenidas!
Olhos em busca, mantidos atentos...
e fechados ao desalento.
Busque, cutuque, cavuque!
Explore, perceba, implore!
Vá atrás, resgate o menino...
Salve-o do desatino.
Não o deixe só, perdido em outras bocas.
Fotocopie e distribua
para pessoas sãs
e loucas.
Resgate o menino desapercebido,
de alma linda e olho escuro.
Atente,
ele pode estar muito longe,
em outro país ou,
quem sabe,
do outro lado do muro.