quarta-feira, 18 de julho de 2012

Não saltemos o risco de giz!

Para M. P.  e V.N.


Ela não sabia, mas inúmeros pensamentos borbulhavam na cabeça da amiga. Pensamentos felizes e saltitantes. "A felicidade definitivamente era isso", resumiam-se todos eles. O dia parecia ter sido cuidadosamente encomendando: temperatura, luminosidade, velocidade do vento... E quem diria mesmo que não foi? Ela também não sabia, mas a amiga prestara atenção aos meninos jogando bola na areia da praia e na singeleza do momento. A amiga estava "em casa" como nunca esteve. E, ao mesmo tempo, sentia-se turista e totalmente disposta a aventurar-se como estrangeira dentro do próprio habitat, sugando para si o tempo restante e exalando para as amigas tudo de bom que havia no lugar que tanto amava. Não acreditava piamente em destino, mas que tudo parecia ter sido minunciosamente planejado por mãos divinas, ahhh... parecia. De repente, de súbito, a amiga sentiu urgência em levá-la junto da outra amiga pelas mãos e correr a ilha, desbravando tudo e desbravando-se, num jogo louco, fugaz e lindo de aventura, emoção e euforia. "Vamos!", disse a amiga para ela e a outra. Ela não quis ir. Parecia ter sido tomada por uma serenidade e uma paz madura e bonita de se ver. E ali, a amiga entendeu. Pra que pressa, se podemos simplesmente parar o tempo, quando bem entendermos? A amiga teve quase certeza de que, se olhasse o relógio, encontraria o ponteiro parado, congelado e esperando o momento certo de reiniciar a contagem do tic-tac que esgota vidas. Estaria ele ali, esperando o momento certo. O momento delas. A amiga teve medo, não olhou o relógio. Preferiu devanear e abstrair. Sentou no banquinho e admirou o mar junto das duas outras. "Que lindo e sempre tão pertinho!" Já havia o vislumbrado tantas vezes, mas que graça tem a felicidade, se ela não é compartilhada? A amiga não sabia dos pensamentos dela naquele instante. E ela não sabia dos pensamentos da amiga. Ambas não sabiam, mas compartilhavam do mesmo sentimento de plenitude. A amiga quase despiu-se da urgência de tentar abraçar o mundo em uma tarde. Quase. Certamente, teria ajudado se soubesse da história do peru, que ao ver um risco de giz a sua volta, julga que está preso e fica imobilizado. Se tivesse tido conhecimento antes, saberia que há o momento de pular o risco de giz bobo e enganador. Mas há também o momento de parar e acolher-se em volta do risco. Efêmero momento, mas tão importante! Há o momento de fazer do risco, uma parede quentinha em um dia frio. Fazer parar o relógio e apreciar o momento. Ahh, se a amiga soubesse da história do peru e dos pensamentos que pipocavam (rá) na sua cabeça, certamente teria dito a ela: "eu sei que a tua vontade é saltar o risco de giz, minha amiga. Mas você está certa. Pra que pressa? Ao menos neste momento, não saltemos o risco de giz! Não saltemos o risco de giz!"



Praia da Joaquina/ Foto: Vanessa Nicola


Esse texto é uma resposta ao post de Michele Pupo, no blog Meus Devaneios

3 comentários:

Michele Pupo disse...

Ah! Que lindo! Chorei, confesso. A felicidade é isso, Mi! Descobri há tempos e não troco por nada. Ela se constrói em horinhas de descuido, como diria o meu Guimarães Rosa. Foi maravilhoso estar com vocês. Amo-os todos!

Vanessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanessa disse...

Fotos espontâneas minhas amigas. Lembram-se?
Momentos como este é que fazem as melhores recordações que podemos ter.
E o tempo parou para nós. Neste espontâneo momento ele parou sim. Se transformou em poesia e eternizou a fotografia.

Dias mto felizes ao lado de vcs. Bjos